segunda-feira, 3 de setembro de 2012

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Ostílio vivia em Benfica. Enviuvou cedo demais, que a pobre mulher que lhe aturava as andanças durou pouco, deixando-o sem descendência e companhia. Nem trata este facto estranheza, que a pobre, já fraca de cabeça, num ápice sucumbiu à maldade de seu marido, um bêbado enfadonho e velhaco que via nela uma propriedade onde poisar de forma embrutecida e desprovida de qualquer afecto. Ela morreu de desgosto, diz-se por lá, foi-se mingando a pouco e pouco perdendo devagarinho partes de si. Primeiro a força, depois a destreza, logo a seguir a fala que se sumiu de vez perante tamanho agoiro que a vida lhe tinha dado. Tudo isto se lhe esvaiu em prol da necessidade, não me restam dúvidas. A força foi-se-lhe porque já era pouca, a destreza porque de nada lhe valia, a voz porque sempre se calava, por mor da inferioridade. Por vezes nem percebemos isto, julgamo-nos capazes de crescer de todos os lados, como se de todos os lados pudéssemos vingar. Tamanho disparate, que o redor detém um poder considerável, deixando-nos um interior por vezes fraco perante o resto. Hoje passei-lhe na porta. Lá dentro, sem ver, imagino. O velho barbudo e velhaco a cheirar a vinho, a empregada novinha em folha que guardou o lugar para si, a alma da esposa, invisível como sempre. ( Post antigo deste blogue)

( Por portas travessas soube evoluções, como se de previsão se tivesse tratado, sem que eu aspire qualquer tipo de título. Há pessoas que de novas passam a velhas, ou que no mínimo deixam de ser gente para passar a ser outra gente, ou ainda gente nenhuma, no sentido da vontade. Há também pessoas pequenas o suficiente para se imporem sobre outras, diversas vezes, da mesma forma, num outro tempo. Ficam grandes para elas e isso basta-lhes, serão felizes? Há ligações estranhas, sujeitas a pressupostos estranhos, num mundo estranho. E prossegue-se assim a vida, estranha, num conceito tão indefinível como a palavra normalidade, ou não sejam elas antagónicas. Nem é estranho, sequer é normal. É a vida, chega, a de cada um, a de cada qual.)  

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