Não faço a mais pequena ideia do que é transformar amor em ódio. Não consigo conceber no meu fraco corpo essa metamorfose, não por capacidade maior mas por falta de apetência, ou seja, não por qualidade, mas por puro defeito. Deve ser muito mais fácil, quando uma ligação se quebra, olhar para o outro e sentir um enorme desdém. Deve ser mais apaziguador dos sentimentos abalados ofender, atirar com toda a força as pedras que se colheram nos momentos íntimos e arremessá-las com a pujança da zanga, ao local exacto que conhecemos tão bem, ou não tenhamos sido nós a lamber as feridas, tantas vezes... Neste sentir não devem caber os momentos bons que se viveram, poderia nesse caso vingar a danada da tristeza, quem sabe. Não devem caber as alegrias, as conquistas, as descobertas a dois, morre tudo pelas mãos fortes de uma fúria cega, em completo desgoverno. Neste assassínio brusco e violento matam-se os ganhos, mata-se a possibilidade de admiração, mata-se o caminho, o progresso, a ligação, mata-se a dignidade e a alma, mata-se tudo o que poderia continuar a ser vivo. Mas deve ser tão mais fácil, mas tão mais fácil, que no fundo o que eu quero dizer é que invejo muito quem transforma amor em ódio, e que não precisa de sentir tudo o que nos pode trazer, duas pessoas que se perderam uma da outra.
Em hábito defendemos o direito ao básico, à zanga, à tristeza, à alegria e ao medo. Mas na realidade já sabemos que muitas vezes somos nós próprios que escolhemos o que sentimos, temos uma facilidade tremenda em substituir uma emoção pela outra, eventualmente sem a noção de que essa substituição nos eleva a um caminho opcional, mas não real, alternativo, mas não natural. Ambos têm defeitos e virtudes. A tristeza é seguramente muito mais produtiva, mas a zanga é francamente mais eficaz, muito melhor quando se quer rematar depressa e bem, com um nó completamente cego.
Em hábito defendemos o direito ao básico, à zanga, à tristeza, à alegria e ao medo. Mas na realidade já sabemos que muitas vezes somos nós próprios que escolhemos o que sentimos, temos uma facilidade tremenda em substituir uma emoção pela outra, eventualmente sem a noção de que essa substituição nos eleva a um caminho opcional, mas não real, alternativo, mas não natural. Ambos têm defeitos e virtudes. A tristeza é seguramente muito mais produtiva, mas a zanga é francamente mais eficaz, muito melhor quando se quer rematar depressa e bem, com um nó completamente cego.