terça-feira, 3 de maio de 2016

vizinhança

O vizinho do segundo diz que gente como eu não faz falta. O povo precisa é de médicos e enfermeiros, para além de outros operacionais práticos que salvem pessoas, que ressuscitem gente, que curem doenças, que sarem feridas abertas, que se dediquem a limpar os despojos do corpo e a recolocar no lugar trapos limpos, lençóis enxutos, ligaduras sem sangue, pratos de comida. De que é que interessam os males da alma, pergunta-me, quando se está a sofrer com o corpo a doer, sujo, doente, fraco, moribundo? Pensei para mim mesma na razão daquelas palavras. Percorri em silêncio a brandura das minhas acções, a leveza do que digo, o desfalecimento do que faço perante a razão, a prática da vida, a solidez da existência, a magnitude do que se vê a olho nu. Está certo, totalmente certo, compreendo-o na perfeição. Para que a vida exista é preciso nascer, para que se possa existir, precisamos de um corpo, para que nos possamos mostrar é preciso que os nossos pensamentos se transformem numa coisa que se veja, e a verdade, a única verdade, é que me dedico ferozmente ao que não se pode encontrar. A vida já me deveria ter ensinado que só o que é palpável é verdadeiro, e que só o que é mensurável é real. O meu vizinho, carregado de dor até aos olhos, dispensa-me porque não sirvo para nada, mas ficou feliz, verdadeiramente sensibilizado, imensamente agradecido, quando no Natal lhe levei uma taça de arroz doce e um pote de mel. Para ele não importa que nada disso me tenha saído das mãos, que o arroz doce tenha sido feito pela minha mãe e que o mel tenha sido extraído pelo meu pai, estava ali, via-se claramente, tinha cheiro, cor, açúcar e canela. Ao contrário do tempo que lhe dedico, meu, arrancado das minhas horas, escutando-o todos os dias a falar da mulher que morreu. Somos tão iguais uns aos outros que a individualidade parece-me cada vez mais um constructo solitário, de algum ser morto há muito. Retiro o que interessa: há pessoas que pensam que sobrevivem a arroz doce, com muita canela, com virotes de enfeites retorcidos, e um paninho a cobrir. E são felizes, tão felizes assim, que chego a pensar que a felicidade é uma doce brandura, servida a quem aprecia retirar com um palito dos dentes os excessos, quando se comeu demasiada fartura. E retiro, claro, que gente como eu não faz falta nenhuma. Não interessa nem ao menino jesus. 

4 comentários:

  1. Tenho um tio que faz questão, à frente de toda a gente, de dizer que o que faço não serve para nada. Ele chega a ficar irritado, gesticula, por aí fora.
    Smile and wave :)

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  2. Na pior das hipóteses o teu trabalho começa quando o do médico acaba. Mas pessoalmente nem acredito nisso, acho que o corpo pode fazer doer a alma e que as dores da alma se manifestam no corpo. Por isso é tudo a mesma coisa. Ah mas é tão mais fácil acreditar no remédio santo!

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    1. Não há remédios santos... Somos um todo, sim...

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