domingo, 29 de maio de 2016

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Percebo a loucura do mundo quando as mães me pedem para controlar em consultório a sintomatologia que incutem aos filhos, todos os dias. Presentemente tenho mães perdidas a quererem filhas perfeitas, outras ansiosas a desejarem meninos atentos e sossegados, pais violentos a queixarem-se da revolta do adolescente que mora lá em casa, e famílias sem tempo a estranhar o refúgio dos filhos, permanente e impossível de combater, nas redes sociais. O trabalho árduo foca as teorias sistémicas, mas na verdade recuperar questões de fundo é tremendo. A sociedade encontrou hoje em dia qualquer coisa semelhante aos dias do fim, e o que quero dizer é que poderemos piorar consideravelmente, claro, mas dificilmente conseguiremos manter a estrutura social à qual ainda estamos habituados. A vida é isto, nada é permanente, os hábitos reproduzem-se, por vezes alteram-se. Na morte dos ancestrais malignos, nascem os presentes, diferentes, eventualmente mais mortíferos. Já não há tanta negligência infantil. Temos mais cuidados de saúde, mais educação escolar, mais dinheiro e mais acesso à cultura geral. Temos na globalidade menos valores, menos tempo, mais doenças emergentes, mais solidão, menos educação de base. Ainda outro dia, num local público, um grupo de jovens competia pelo arroto mais alto. Também me lembro de na minha adolescência existir este tipo de competição. A diferença é que na época alguém ralhava, mal ouvisse o disparate. Hoje há uma indiferença misturada com uma descrença, polvilhada por muita resignação, servida com uma boa dose de desinvestimento. Ninguém cresce sem investimento real do próximo, ninguém aprende sem dedicação, ninguém ganha limites perante a isenção de quem, supostamente, deveria orientar. Qualquer dia arrotamos todos a este mundo farto de vazio, não há estômago que aguente, parece-me. É como mascar pastilha elástica permanentemente, sem engolir nada que nos sustente.

2 comentários:

  1. é muito bom passar por aqui. mais do que opinar, incentiva à reflexão. andamos sempre com as verdades absolutas na boca (e nos murais), e afastamo-nos perigosamente da necessidade de pensar.

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  2. Obrigada pela visita e pela simpatia. Pensar será realmente o que nos pode mover... Bom Domingo.

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