quinta-feira, 19 de maio de 2016

carpideira

Vi passar um menino pequeno pelas mãos da sua mãezinha. Levava um pirulito na boca, e tinha o ar de quem abre a goela por qualquer contrariedade da sua curta vida. Ia de olhos carrancudos, cabisbaixo, enquanto a senhora insistia que sorrisse, que saltasse, que se entregasse à idade da brincadeira, nunca mais lá voltaria. O pobre infeliz mantinha-se quieto, e perante a impetuosidade da mãe, chorou. Primeiro parou os passos. Depois esticou os lábios uns segundos alongados e cerrou os olhos com muita força, de seguida respirou fundo, e quando regressou a ele já um berro atravessava a Loja dos três balcões, dava a volta pelo Gonçalo das boinas, entrava e saía na ourivesaria e salpicava, já de longe e ao de leve, a casinha dos jornais. Apeteceu-me berrar com ele, naquele exacto momento. Invejei-o descaradamente. Quis tanto o seu grito, cobicei de tal forma o seu ar de desespero infortunado, que me apeteceu levá-lo para casa, colocá-lo no sofá da minha sala sentadinho nas almofadas, alimentá-lo a doces e contrariá-lo, sempre que eu precisasse de chorar. Na falta do meu grito ecoaria o dele, casa afora, noite dentro, a castigar a pobre da vizinhança. Na manhã seguinte ele descansava e eu ia à vida. Liberta pelo corpo esganiçado e solto de uma criança.

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