quarta-feira, 27 de abril de 2016

oi, moreninha

Foi num catorze de Fevereiro de um ano qualquer, teria eu uns doze anos. A escola criou uma caixa para escrever cartas de amor, e para a minha turma vieram umas sete, talvez umas oito, todas elas para raparigas: duas para a loira, as restantes para mim. Na hora não apreciei nada daquilo, senti tudo como uma estalada na cara, talvez do imprevisto, talvez dos sorrisos malandros da turma, talvez dos olhares de reprovação das outras, mas que diabo seria aquilo? A professora de português entregou-me o monte e ficou à espera, esquecendo-se apenas quando percebeu que eu não fazia ideia alguma de partilhar os versos apaixonados com tantos ouvidos, curiosos e indignados. A pouco e pouco, ao longo da aula, fui discretamente abrindo cada uma. Entre umas brincadeiras, umas seriedades, umas loucuras e outras tantas leviandades, debrucei-me sobre uma delas, que com alguma sabedoria se iniciava assim: "Oi, moreninha...". Ainda mal tinha sorvido estas palavras, e já a professora me espreitava por trás do ombro, enquanto me dizia: "descobre de quem é essa... começou tããão bem..." Não vem ao caso se descobri ou não, sequer as intenções de quem a escreveu. Vem ao caso que nesse dia, precocemente e sem querer, percebi algumas coisas de utilidade duvidosa: não há mulher nenhuma que não se encolha diante de determinadas palavras, nem mesmo as que fingem ser duras ou donas de si; os homens nem sempre preferem as loiras e as próprias sabem bem disso, muito embora tentem à exaustão do cansaço manterem-se iguais por toda uma vida, uma tremenda seca, julgo eu; todos eles sabem muito bem o que dizer quando querem ser bem recebidos, talvez porque nos conheçam muito melhor do que nós próprias, é um facto; oi, morenhinha, ficou-me como um bom começo de algo que nem chegou a começar. Mas que não deixou por isso, de ser um bom começo.   

2 comentários:

  1. É uma daquelas coisas minúsculas que nos acontecem, que nós nunca esquecemos. De minúsculas não têm nada!!
    Aprendemos que cada gesto e cada palavra que dirigimos aos outros, podem ter um significado enorme. E muitas vezes não é o significado de quem transmite, mas sim o de quem recebe. E a diferença pode ser muito grande.
    Eu acho esse "oi, moreninha" um doce. Se calhar por ser morena ;)
    Beijinho CF

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    1. É verdade Maria João... :) Ainda me lembro disso com carinho, talvez pela ingenuidade própria da idade...

      Um beijinho para si.

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