terça-feira, 12 de abril de 2016

medos

As crianças têm medo dos tubarões, do escuro e das cobras. Escrevem isto completamente às claras no cartão do jogo, e enfiam com rapidez dentro da caixa. Cá fora, e sob a indicação de escrever a maior força que utilizam para ultrapassar aquele medo, escrevem: "não ir ao mar fundo", "a mãe", ou "ser valente". Os adultos escrevem em segredo e tentam esconder. Alguns desabafam coisas como "não conseguir fazer o meu filho feliz", e cá fora arriscam escrever grandiosidades como "amor" , "alegria", ou "capacidade de dar a volta por cima". Percebo-os na perfeição, estou com eles no medo, na força, na lágrima teimosa que insiste em aparecer quando os olhamos ingénuos aflitos com um "leão", uma "escuridão" ou um "animal comilão". Crescer é perder a capacidade de olhar o mundo de um território onde os sustos são todos pequeninos, mais ou menos controláveis, por vezes inofensivos, e que quase sempre passam com o colo da mãe. Quem já cresceu, por sua vez, ganhou a capacidade de dar esse colo, de matar monstros e bichos, de acender luzes, de curar feridas no joelho e de dar estaladas de mão cheia aos sonhos maus, que por vezes resolvem chegar. Os medos que sobram para esta gente grande são coisas que não se vêm a olho nu. Só se percebem se conseguirmos espreitar bem de dentro dos olhos, do coração e do sangue que corre dentro das veias. Devem ser coisa pouca, deveremos pensar, uns metros de pele, um sorrido no rosto, uma respiração muito forte e parece que passam. Ser grande deve ser mesmo bom. E rápido, deve ser rápido, os medos morrem enquanto o diabo esfrega um olho.

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