quarta-feira, 20 de abril de 2016

um lugar cómico

Temos a mania, profundamente humana, de adivinhar o que o outro sente, o que pode precisar, o que gosta ou  imagina. Eu incluída, claro, fui até treinada para o fazer com alguma ciência, nos bancos da faculdade. Os livros de hoje já arriscam alguma evolução. Já nos avisam que não há conselhos, que não há aferições, que o trabalho é de sintonia, empatia, validação, compreensão, mas a verdade é que não deve haver nenhum profissional da área que de vez em quando não coloque o pé em ramo verde, não arrisque um insigth que não lhe pertence, não tire palavras da boca, nabos da púcara, não faça uma transferência ou outra, uma contra-transferência, uma projecção, um desassossego, uma identificação. Não há nada a fazer, é da nossa natureza, e receio bem que não haja treino, competência ou ciência que nos balize eficazmente a acção, é errar até doer, sei disso também pela frequência com que se enganam em relação a mim. Por vezes encolho os ombros, outras tantas explico, outras ainda aviso que estão redondamente equivocados, mas as que eu mais aprecio é quando cá dentro, de mim para mim mesma, gozo o prato do tiro ao lado. O olhar radiante, por exemplo, pode ser da maquilhagem. O ar viçoso pode ser da gula, e o cansaço pode advir de uma festa pela madrugada afora, coisa boa, portanto. Não sabemos quase nada disto tudo, mas somos extremamente felizes quando nos enganamos, certíssimos das nossas certezas alheias. Deve ser também isto que faz do mundo um sítio cómico e louco: seremos certamente o único lugar do universo onde sabemos dos outros, muito antes de sabermos de nós. 

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