segunda-feira, 4 de abril de 2016

regresso à escola

O regresso à escola foi animado. As comparações de notas surgem em primeiro plano, os cinco injustos, os quatro assim assim, os três à rasca, os dois misericordiosos, os uns verdadeiros. Gosto muito de matemática para compreender o mundo científico. Aprecio a medida onde nos leva o conhecimento da biologia, os mapas de genes, as fórmulas que descobrem a cura do cancro, que permitem combater as demências, que nos possibilitam aperfeiçoar a técnica perfeita do rigor universal. Mas transformar conhecimentos em simples números absolutos nunca me fez muito sentido. Até porque, e bem vistas as coisas, ainda encontro poucos professores preocupados com a contabilização do que os jovens realmente necessitam, e ainda descubro, infelizmente, muitos pais pouco atentos à percentagem de alcance de felicidade. Vivemos todos numa era em que é mais importante um 100 a português ou a matemática, do que um 70 a satisfação pessoal, crescimento saudável e paz. Estarão certamente enganados, equivocados, centralizados no foco errado. Se todos caminhássemos para a evolução abrangente da diferença, em vez de corrermos para a uniformização das criancinhas, todas vestidas de igual, no colégio da elite, chegaríamos muito mais acima no conhecimento interno de cada um: o que mais importa para o crescimento do mundo, só os cegos do capitalismo não conseguem ver isto. 

(O meu afilhado tem dois anos. Trouxe uma checklist infinita de pequenas aquisições, divididas entre quase conseguida, não conseguida, conseguida e perfeitamente conseguida. Fico feliz ao saber que ele consegue saber três cores, dizer um número de palavras que não me lembro bem qual é, reconhecer alimentos, e agarrar nos talheres como gente grande. Fico também bastante satisfeita pelo facto dele obedecer a algumas regras. Mas agrada-me muito mais saber que ele não obedece a todas, foge do comboio quando lhe dá na real gana, cospe as carninhas da sopinha, e berra quando lhe tiram os brinquedos porque "ainda não sabe partilhar". Um dia vais aprender meu querido, tens todo o tempo do mundo. E não, não tem de ser quando a tua educadora quiser, tem de ser quando a vida te ensinar e tu estiveres na altura de aprender.)

Não fui à reunião de notas do meu filho, que por sua vez só hoje foi espreitar a pauta. Irei assinar o papel um dia destes. Ele não se lembra muito bem o que teve ao quê, esqueceu-se, mas sabe que é suficientemente responsável para crescer, e que no meio desta selva toda vai bem, obrigada. Fico feliz por ele, por mim, e por toda a comunidade escolar que consegue manter-se saudavelmente em paz, no terrorismo educativo da sociedade.

4 comentários:

  1. E os pais permitem que exista uma checklist de conseguimentos. Que frustração.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma " evolução" estranha. Há treze anos, quando o meu filho era pequeno, não havia nada disto... :(

      Eliminar
  2. Um excelente texto. Já é hábito mas este poderia ter saído das minhas mãos também mas com menos sabedoria e talvez palavras feias. Adoro o que transmites.
    Beijinho!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Diana. :) Aposto que farias parecido ou francamente melhor. O que conta é o que se quer transmitir...

      Eliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores