Houve o dia em que se soltou de si mesma. Cansada que estava do encobre do que lhe ia dentro, muitas mulheres assim se encontram, homens, alguns, menos por certo, que há coisas que são muito nossas. Não se lembra de ter falhado a condição a que se propôs, naquele dia de Inverno em que envergou um vestido de noiva, e foi levada ao altar pelo seu pai, que a entregou com orgulho ao que foi seu marido, desde ai até agora. Os filhos vieram cedo, primeiro ele, depois ela, um casal, obra portanto concluída, sendo que por ali se ficaram, que a vida nem era de fartura, e o pão para a boca, era uma riqueza conseguida em esforço. Mãe era uma palavra cheia, que lhe acatava a existência, pelo que o recato, a casa, a lida dos dias, a ela chegavam, como se o mundo, fosse local que nem existisse, ou melhor, existia, um pequeno, o seu, lá da sua casa, da sua aldeia. O seu mundo.
Desde cedo lhe tinham ensinado a cuidar famílias, num zelo extremoso e imprescindível a quem quisesse constituir uma boa Dona de casa, que não julguem cá, não ser tarefa de nobreza, que o rigor necessário é de uma dedicação elevadíssima, embora muitas vezes desdenhado por quem não lhe reconhece o valor. Ela reconhecia, fazendo dele toda a sua existência, ora na cozinha, ora nos bordados, ora nas lidas domésticas, sempre realizadas no preceito, primeiro varre-se o chão, depois limpa-se o o pó, e por aí fora, que o que não falta, são sabedorias destas, hoje, já quase esquecidas.
Porém, surgiu-lhe um cansaço. Não assim, num repente de nada, mas miudinho, lento, um ligeiro incómodo que se foi desenvolvendo periclitante, num corpo que se queria cedido a uma realidade para sempre, por isso lhe ter sido ensinado, por para isso ter sido fadado, por esse destino lhe ter sido dado. A primeira reacção foi a negação efectiva do seu estado de indignação, que Mulher de M grande não se cansa nunca da sua devoção, pelo que o que se lhe acendeu, foi um sentimento de incompreensão por ela mesma, esposa dedicada, mãe extremosa, Mulher. Porém, e ainda que na revolta, já não lhe chegam a casa, os filhos adolescentes, o marido. Nem se percebe, nem se encontra, precisa, nem sabe do quê.
E pergunto-me como é possível a ambição por algo que nem se conhece. Respondo-me a mim mesma de imediato, que o que a atormenta, nem é a ambição por algo, mas o cansaço por tudo. Venha o que vier.
O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Ajudas preciosas
Saída das compras, mil sacos, paletes de leite, passa padrinho do rebento.
Cumprimentos, beijinhos às primas, olá tudo bem, e eis que diz o padrinho:
- Então J, não ajudas a mãe?
Ao que J. responde de ar indignadíssimo,
-Não ajudo???? Não vês que eu levo o jornal?!?!
Cumprimentos, beijinhos às primas, olá tudo bem, e eis que diz o padrinho:
- Então J, não ajudas a mãe?
Ao que J. responde de ar indignadíssimo,
-Não ajudo???? Não vês que eu levo o jornal?!?!
Entregas
Há dias, em que o cansaço a assola. Numa potência desenfreada, deixando-a numa inércia descabida, que o que mais lhe apraz nessas horas, curtas ou compridas, nem importa, é deixar-se sucumbir à sua mercê, aligeirar as forças e entregar-se sem limites. É talvez essa entrega que desde sempre lhe falta.
A entrega, é uma extraodinária capacidade humana, de nos deixarmos a nós para nos darmos a alguém, que nos segure, nos ampare as fraquezas, nos acuda em estados de aflição. Esse sossego conseguido, de quando a nossa mente descansa no calor da confiança, dá-nos uma força de alento que nos acompanha, permitindo que a carga dos dias alivie, de quando em vez, quando a fraqueza se insurge, quando a guarda descansa. Acontece a todos. Existe gente que nem bem tem em quem se encoste. Ou que tem, mas devagarinho, com algum cuidado supremo, não vá alguma coisa quebrar para sempre, e mazelar o encosto, que apesar de fraco, está lá, senão num amparo, talvez num consolo. É quanto basta.
Ela porém nada tem. Não há ninguém no mundo que dela se abeire para que lá possa descansar, é uma alma perdida, embora muitos a considerem de todo encontrada. Ironias. Não que o mundo nem lhe gire a envolta, não que as gentes não a circundem de perto, mas no entanto, o mais que lhe fazem, é em seu regaço sossegar, que quase parece, que nos lugares da terra, nem mais sítios existem assim, pela quantidade de almas perdidas que a ela socorrem, clara, ou discretamente, nem importa. O colo, esse, esta lá sempre, ora fraco, ora forte, depende, que ninguém nota mas a ela, pobre de Cristo, a qual julgam suprema, estes colos que dá saem-lhe de dentro da alma, exigindo-lhe uma força atroz e pungente, porque ao senão, incorre o risco de intranquilizar, quem com tanta ânsia a procurou. Não concebe tal coisa. Nem bem percebe porém, porque ninguém a encontra, porque ninguém a percebe frágil ao invés de forte, pequena ao invés de grande, pecadora ao invés de perfeita, carecida, ao invés de cuidadora. Houvesse alguém que lhe lesse nos olhos, a imensa carência, e poderia esse alguém estender-lhe um colo, uma mão que fosse, que lhe permitisse a ela o desleixo do sossego, uns minutos apenas.
Até hoje, nada. Quase se entrega à fraqueza.
A entrega, é uma extraodinária capacidade humana, de nos deixarmos a nós para nos darmos a alguém, que nos segure, nos ampare as fraquezas, nos acuda em estados de aflição. Esse sossego conseguido, de quando a nossa mente descansa no calor da confiança, dá-nos uma força de alento que nos acompanha, permitindo que a carga dos dias alivie, de quando em vez, quando a fraqueza se insurge, quando a guarda descansa. Acontece a todos. Existe gente que nem bem tem em quem se encoste. Ou que tem, mas devagarinho, com algum cuidado supremo, não vá alguma coisa quebrar para sempre, e mazelar o encosto, que apesar de fraco, está lá, senão num amparo, talvez num consolo. É quanto basta.
Ela porém nada tem. Não há ninguém no mundo que dela se abeire para que lá possa descansar, é uma alma perdida, embora muitos a considerem de todo encontrada. Ironias. Não que o mundo nem lhe gire a envolta, não que as gentes não a circundem de perto, mas no entanto, o mais que lhe fazem, é em seu regaço sossegar, que quase parece, que nos lugares da terra, nem mais sítios existem assim, pela quantidade de almas perdidas que a ela socorrem, clara, ou discretamente, nem importa. O colo, esse, esta lá sempre, ora fraco, ora forte, depende, que ninguém nota mas a ela, pobre de Cristo, a qual julgam suprema, estes colos que dá saem-lhe de dentro da alma, exigindo-lhe uma força atroz e pungente, porque ao senão, incorre o risco de intranquilizar, quem com tanta ânsia a procurou. Não concebe tal coisa. Nem bem percebe porém, porque ninguém a encontra, porque ninguém a percebe frágil ao invés de forte, pequena ao invés de grande, pecadora ao invés de perfeita, carecida, ao invés de cuidadora. Houvesse alguém que lhe lesse nos olhos, a imensa carência, e poderia esse alguém estender-lhe um colo, uma mão que fosse, que lhe permitisse a ela o desleixo do sossego, uns minutos apenas.
Até hoje, nada. Quase se entrega à fraqueza.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Sophia
A Hora da Partida
A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque também a mim me apraz homenageá-la.
A/normalidade
Escrevi-o há tempos, num agradável convite de Pedro Correia, para o Delito de Opinião. Hoje, fez-me todo o senti-lo trazê-lo cá... Está entre aspas. Apesar de tudo, é pertença do Delito.
"Duvidei ter queda para isto, que desde sempre me testo, nem por encontrar incapacidades severas, mas talvez pela necessidade de sentir internamente, a prova mais do que provada de que as minhas escolhas são as escolhas que eu queria, se não para sempre, expressão traiçoeira e enganadora, como poucas o são, pelo menos no momento exacto da escolha.
Na pequena cidade, nem bem tinha noção do que me aguardava na grande, que ao ter sabido, por certo me teria intimidado, confesso, que nem nunca devemos julgar, que o desconhecimento não é nosso aliado, eu pelo menos, assim devo dizê-lo, que a conhecer previamente determinadas realidades, teria delas fugido a bom fugir, sem escolha efectiva, por assim dizer. Um desperdício. Nos caminhos desta vida, o receio do que se encontrará, em muito já nos castra, quanto mais se nos fosse fornecido previamente, por alguma entidade suprema, fantástica ou não, o enorme segredo, da consequência das nossas escolhas. Aquém estaríamos, nem duvido, que nos deixaríamos prostrar numa inércia descabida e exacerbada, válida apenas e só, para nos restringir a existência ainda mais, a par e passo com outras limitações, já por si determinantes. Seguimos pois na ignorância.
A primeira aula foi de um efeito tremendo, num auditório gigantesco povoado maioritariamente por mulheres, com um professor alucinado ao fundo, que falava de forma dúbia e penetrante, enquanto fumava cigarros acesos em escadinha, uns nos outros, se é que me explico. Após lhes dar o devido préstimo, que lhe aprazia por certo a existência, tal o delírio perceptível a olho nu, e numa ingratidão manifesta por tão profundo gosto, deixava-os morrer devagarinho, virados ao avesso, como se uma tortura lhes infligisse aos nossos olhos, que mais não faziam, do que mirar alternadamente, o seu ar lunático e insano, e os cigarros que se mirravam, em processo longo e penoso, até se esgotarem em cinza. Dentro dos olhares que se trocavam, nos quais incluo os meus, consegui ler incertezas, dúvidas e acima de tudo receio, de termos chegado a um mundo hostil, onde quem supostamente nos ensinaria a ajudar o outro, carecesse por sua vez dessa mesma ajuda, numa frágil teoria naife, como se a nossa mente assim fosse, de leitura fácil e simples de catalogar, sendo que nós constituíamos os alunos certinhos, bem defronte ao professor maluco, que comia cigarros enquanto falava, de olhar vidrado e vazio, como se na sala, apenas ele e eles existissem, numa profunda empatia imperturbável, que quase me causava cobiça.
Estava eu ainda tão longe.
Desse dia em diante aproximei-me, despertei, julgo poder dizer, e de tanto que o ouvi nos seus delírios internos, enquanto queimava cigarros devagarinho, e recitava Sigmund Freud e Melanie Klein, entre outros tão insanos quanto eles, percebi que as mentes, são um mistério sem fundo e sem fim, e que na busca da análise perfeita, ou nos deixamos deleitar por elas, ou ficamos aquém do pleno conhecimento, se é que plenitude, é termo exequível ao Homem. Ao escolher o aquém, ao não nos permitirmos ao devaneio, seguiremos um caminho concreto e conciso, seguro, bem certo que sim, e por isso mesmo por demais limitado, que a segurança, tem destas inerências, consequências, melhor dizendo.
Nem por isso me causa simpatia, esse caminho coeso e recto, sendo que divago constantemente aqui e além, entre experiências de vida coerentes ou não, onde mergulho e emerjo num percurso alucinante e sem fim, que me transporta dentro das gentes, onde me encaixo para num ápice fugir, num dia a dia abrangente, ambicioso e entusiástico, onde não raras vezes, devo apresentar rasgos de loucura, ou não divague eu em mentes alheias, detentoras de recantos obscuros e sombrios, umas vezes meus, outras vezes não.
Por certo, nem todos me entendem, o que nem me aflige, que me encontro aberta a incompreensões. Tal qual eu também não entendi em tempos, os cigarros, virados ao avesso, aquando das divagações do homem que me despertou para a imensidão interna, e ao qual rotulei de louco, numa perfeita ignorância, que felizmente releguei.
Utilizar tais termos, como loucura, anormalidade ou outros de semelhante carácter, e carga sociológica, na catalogação da mente, como se determinados actos isolados nos dessem precisa informação, é um terreno perigoso nos meandros da evolução, por onde nem nos deveríamos permitir entrar. A cada dia, em cada viagem alheia, mais ou menos genial, mais ou menos penetrante, que na reserva, no receio, na segurança da protecção e do conforto, nem me teria chegado, ganho riquezas de vida, tão minhas como mais nada.
Loucura, talvez seja até o aquém. Apenas e só pelo desperdício a que se sujeita, quem não se consegue abrir e seguir."
"Duvidei ter queda para isto, que desde sempre me testo, nem por encontrar incapacidades severas, mas talvez pela necessidade de sentir internamente, a prova mais do que provada de que as minhas escolhas são as escolhas que eu queria, se não para sempre, expressão traiçoeira e enganadora, como poucas o são, pelo menos no momento exacto da escolha.
Na pequena cidade, nem bem tinha noção do que me aguardava na grande, que ao ter sabido, por certo me teria intimidado, confesso, que nem nunca devemos julgar, que o desconhecimento não é nosso aliado, eu pelo menos, assim devo dizê-lo, que a conhecer previamente determinadas realidades, teria delas fugido a bom fugir, sem escolha efectiva, por assim dizer. Um desperdício. Nos caminhos desta vida, o receio do que se encontrará, em muito já nos castra, quanto mais se nos fosse fornecido previamente, por alguma entidade suprema, fantástica ou não, o enorme segredo, da consequência das nossas escolhas. Aquém estaríamos, nem duvido, que nos deixaríamos prostrar numa inércia descabida e exacerbada, válida apenas e só, para nos restringir a existência ainda mais, a par e passo com outras limitações, já por si determinantes. Seguimos pois na ignorância.
A primeira aula foi de um efeito tremendo, num auditório gigantesco povoado maioritariamente por mulheres, com um professor alucinado ao fundo, que falava de forma dúbia e penetrante, enquanto fumava cigarros acesos em escadinha, uns nos outros, se é que me explico. Após lhes dar o devido préstimo, que lhe aprazia por certo a existência, tal o delírio perceptível a olho nu, e numa ingratidão manifesta por tão profundo gosto, deixava-os morrer devagarinho, virados ao avesso, como se uma tortura lhes infligisse aos nossos olhos, que mais não faziam, do que mirar alternadamente, o seu ar lunático e insano, e os cigarros que se mirravam, em processo longo e penoso, até se esgotarem em cinza. Dentro dos olhares que se trocavam, nos quais incluo os meus, consegui ler incertezas, dúvidas e acima de tudo receio, de termos chegado a um mundo hostil, onde quem supostamente nos ensinaria a ajudar o outro, carecesse por sua vez dessa mesma ajuda, numa frágil teoria naife, como se a nossa mente assim fosse, de leitura fácil e simples de catalogar, sendo que nós constituíamos os alunos certinhos, bem defronte ao professor maluco, que comia cigarros enquanto falava, de olhar vidrado e vazio, como se na sala, apenas ele e eles existissem, numa profunda empatia imperturbável, que quase me causava cobiça.
Estava eu ainda tão longe.
Desse dia em diante aproximei-me, despertei, julgo poder dizer, e de tanto que o ouvi nos seus delírios internos, enquanto queimava cigarros devagarinho, e recitava Sigmund Freud e Melanie Klein, entre outros tão insanos quanto eles, percebi que as mentes, são um mistério sem fundo e sem fim, e que na busca da análise perfeita, ou nos deixamos deleitar por elas, ou ficamos aquém do pleno conhecimento, se é que plenitude, é termo exequível ao Homem. Ao escolher o aquém, ao não nos permitirmos ao devaneio, seguiremos um caminho concreto e conciso, seguro, bem certo que sim, e por isso mesmo por demais limitado, que a segurança, tem destas inerências, consequências, melhor dizendo.
Nem por isso me causa simpatia, esse caminho coeso e recto, sendo que divago constantemente aqui e além, entre experiências de vida coerentes ou não, onde mergulho e emerjo num percurso alucinante e sem fim, que me transporta dentro das gentes, onde me encaixo para num ápice fugir, num dia a dia abrangente, ambicioso e entusiástico, onde não raras vezes, devo apresentar rasgos de loucura, ou não divague eu em mentes alheias, detentoras de recantos obscuros e sombrios, umas vezes meus, outras vezes não.
Por certo, nem todos me entendem, o que nem me aflige, que me encontro aberta a incompreensões. Tal qual eu também não entendi em tempos, os cigarros, virados ao avesso, aquando das divagações do homem que me despertou para a imensidão interna, e ao qual rotulei de louco, numa perfeita ignorância, que felizmente releguei.
Utilizar tais termos, como loucura, anormalidade ou outros de semelhante carácter, e carga sociológica, na catalogação da mente, como se determinados actos isolados nos dessem precisa informação, é um terreno perigoso nos meandros da evolução, por onde nem nos deveríamos permitir entrar. A cada dia, em cada viagem alheia, mais ou menos genial, mais ou menos penetrante, que na reserva, no receio, na segurança da protecção e do conforto, nem me teria chegado, ganho riquezas de vida, tão minhas como mais nada.
Loucura, talvez seja até o aquém. Apenas e só pelo desperdício a que se sujeita, quem não se consegue abrir e seguir."
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