sábado, 29 de janeiro de 2011

A/normalidade

Escrevi-o há tempos, num agradável convite de Pedro Correia, para o Delito de Opinião. Hoje, fez-me todo o senti-lo trazê-lo cá... Está entre aspas. Apesar de tudo, é pertença do Delito.

"Duvidei ter queda para isto, que desde sempre me testo, nem por encontrar incapacidades severas, mas talvez pela necessidade de sentir internamente, a prova mais do que provada de que as minhas escolhas são as escolhas que eu queria, se não para sempre, expressão traiçoeira e enganadora, como poucas o são, pelo menos no momento exacto da escolha.
Na pequena cidade, nem bem tinha noção do que me aguardava na grande, que ao ter sabido, por certo me teria intimidado, confesso, que nem nunca devemos julgar, que o desconhecimento não é nosso aliado, eu pelo menos, assim devo dizê-lo, que a conhecer previamente determinadas realidades, teria delas fugido a bom fugir, sem escolha efectiva, por assim dizer. Um desperdício. Nos caminhos desta vida, o receio do que se encontrará, em muito já nos castra, quanto mais se nos fosse fornecido previamente, por alguma entidade suprema, fantástica ou não, o enorme segredo, da consequência das nossas escolhas. Aquém estaríamos, nem duvido, que nos deixaríamos prostrar numa inércia descabida e exacerbada, válida apenas e só, para nos restringir a existência ainda mais, a par e passo com outras limitações, já por si determinantes. Seguimos pois na ignorância.
A primeira aula foi de um efeito tremendo, num auditório gigantesco povoado maioritariamente por mulheres, com um professor alucinado ao fundo, que falava de forma dúbia e penetrante, enquanto fumava cigarros acesos em escadinha, uns nos outros, se é que me explico. Após lhes dar o devido préstimo, que lhe aprazia por certo a existência, tal o delírio perceptível a olho nu, e numa ingratidão manifesta por tão profundo gosto, deixava-os morrer devagarinho, virados ao avesso, como se uma tortura lhes infligisse aos nossos olhos, que mais não faziam, do que mirar alternadamente, o seu ar lunático e insano, e os cigarros que se mirravam, em processo longo e penoso, até se esgotarem em cinza. Dentro dos olhares que se trocavam, nos quais incluo os meus, consegui ler incertezas, dúvidas e acima de tudo receio, de termos chegado a um mundo hostil, onde quem supostamente nos ensinaria a ajudar o outro, carecesse por sua vez dessa mesma ajuda, numa frágil teoria naife, como se a nossa mente assim fosse, de leitura fácil e simples de catalogar, sendo que nós constituíamos os alunos certinhos, bem defronte ao professor maluco, que comia cigarros enquanto falava, de olhar vidrado e vazio, como se na sala, apenas ele e eles existissem, numa profunda empatia imperturbável, que quase me causava cobiça.
Estava eu ainda tão longe.
Desse dia em diante aproximei-me, despertei, julgo poder dizer, e de tanto que o ouvi nos seus delírios internos, enquanto queimava cigarros devagarinho, e recitava Sigmund Freud e Melanie Klein, entre outros tão insanos quanto eles, percebi que as mentes, são um mistério sem fundo e sem fim, e que na busca da análise perfeita, ou nos deixamos deleitar por elas, ou ficamos aquém do pleno conhecimento, se é que plenitude, é termo exequível ao Homem. Ao escolher o aquém, ao não nos permitirmos ao devaneio, seguiremos um caminho concreto e conciso, seguro, bem certo que sim, e por isso mesmo por demais limitado, que a segurança, tem destas inerências, consequências, melhor dizendo.
Nem por isso me causa simpatia, esse caminho coeso e recto, sendo que divago constantemente aqui e além, entre experiências de vida coerentes ou não, onde mergulho e emerjo num percurso alucinante e sem fim, que me transporta dentro das gentes, onde me encaixo para num ápice fugir, num dia a dia abrangente, ambicioso e entusiástico, onde não raras vezes, devo apresentar rasgos de loucura, ou não divague eu em mentes alheias, detentoras de recantos obscuros e sombrios, umas vezes meus, outras vezes não.
Por certo, nem todos me entendem, o que nem me aflige, que me encontro aberta a incompreensões. Tal qual eu também não entendi em tempos, os cigarros, virados ao avesso, aquando das divagações do homem que me despertou para a imensidão interna, e ao qual rotulei de louco, numa perfeita ignorância, que felizmente releguei.
Utilizar tais termos, como loucura, anormalidade ou outros de semelhante carácter, e carga sociológica, na catalogação da mente, como se determinados actos isolados nos dessem precisa informação, é um terreno perigoso nos meandros da evolução, por onde nem nos deveríamos permitir entrar. A cada dia, em cada viagem alheia, mais ou menos genial, mais ou menos penetrante, que na reserva, no receio, na segurança da protecção e do conforto, nem me teria chegado, ganho riquezas de vida, tão minhas como mais nada.
Loucura, talvez seja até o aquém. Apenas e só pelo desperdício a que se sujeita, quem não se consegue abrir e seguir."

3 comentários:

  1. CF..ando à procura de um livro que me "engula"..tenho a certeza que um escrito por ti seria o certo. Já pensaste nisso?
    :)

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  2. :) Fico feliz Sandra. Já pensei, mas julgo-me ainda necessitada de trilhar mais caminhos. Quem sabe um dia...

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  3. :):):):):):):) e pronto, faz de conta que enchi aqui a janelinha com eles :):):):)

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