terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Contágios

Sentada na esplanada, sujeita-se aos ares de inverno em prol de um cigarro, uma coisa que mais não é, do que uma vareta empedernida, que se mirra a cada puxo, poderemos aqui constatar, a fragilidade da espécie, que se rende a nada, como se do nada dependesse, ou melhor, depende mesmo, sejamos verdadeiros e concisos. Nunca me parece prudente, o uso da palavra B, quando a que realmente encaixa é a palavra A, que na nossa língua, podemos gabar-nos desta mais valia, sendo que julgo nem haver, situação, coisa, ou sentimento, que necessitemos de baptizar sem ter com quê. Se há riqueza que possuímos são as nossas palavras, não me parece que possa existir, contestação a este facto. Apesar disso, em tempos, já tive medo. De usar palavras fortes, que se entenda, pelo que amenizava o que podia, num receio infundadíssimo de ferir susceptibilidades. Erro crasso. Se há coisa que se aprende com o crescimento, é que as palavras devem ser usadas na hora certa, no local certo, na descrição certa, pelo que, e só a título de exemplo, poder-vos-ei dizer que parir, é sempre mais preciso do que ter um bebé, e para além disso, poupa-nos palavreado, que também não sou a favor do desperdício infundado. Tudo isto, respeitando as regras linguísticas e de educação, obviamente. Mas eis que já me perdi. Fiz exactamente o que acima digo que nem sequer se deve fazer, ou seja, desperdiço palavras, quando no fundo, o que me ocorre, é dizer uma mísera coisa, que passo já a escrever, não vá perder-me de novo em frases e argumentos. Ela estava sentada, e fumava um cigarro. Ele passou, traduzido num farrapo de miséria, a quem apetecia também, uns puxos na vareta que embala gente. Nem censuro, como nem censuro também, a resposta negativa proferida pela Senhora. Perturbou-me porém o despeito, como se a miséria externa, pudesse de alguma forma pegar-se, contagia-la a ela, digna de si, através daquele pedinte miserável, que não precisou chegar perto, para causar uma repulsa notória, percebeu, o pobre, e saiu depressa. Não concebo ainda, o porquê de não entendermos, que a desgraça interna, leia-se ódios, pretensões, hipocrisias, e afins, se contagia muito mais facilmente. Só essa nossa grande ignorância, justifica a praga.

3 comentários:

  1. :):):) Já tinha saudades de passar por aqui :):):)

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  2. Em cima do seu pedestal por vezes há mais miséria, que a referida quando passa ao nosso lado...
    Miséria de sentimentos... solidariedade...tanta miséria encapotada!

    Gosto de a ler..)))

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