sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Escolhas

Não posso pagar. Chega para um, não dá para os dois, e é dois que nós somos. Que faço agora? Escolho qual de nós vai morrer, e resolvo o assunto?

Discurso proferido por alguém considerávelmente diminuído nas suas funções vitais, na decorrência de uma enfisema pulmonar. A esposa, vitima de Acidente Vascular Cerebral, perdeu a fala e a mobilidade há dois anos. Eram residêntes de um Lar clandestino, encerrado recentemente pelo Serviço de Segurança Social da área, por denúncia de carências graves, a diversos níveis. Nesse lar, onde pouco se comia, o dinheiro chegava para os dois.

Deixo apenas algumas questões, por me parecerem pertinentes; a quem recorre esta gente, sem família e sem bens? Porque não disponibiliza a Misericórdia e as IPSS, lugares suficientes, para quem delas verdadeiramente necessita? Porque será, que mesmos nestas Instituições, ditas de solidariedade social, entram, muitas das vezes, os que mais podem, em detrimento dos que mais precisam? Porque compactua o estado, com situações clandestinas que teimam em surgir, pela procura efectiva que têm, devido aos preços mais baixos que praticam? Porque se exige em demasia das entidades credenciadas, e se fecham muitas vezes os olhos aos cogumelos que germinam a cada esquina, onde as necessidades básicas são muitas das vezes negligenciadas? Porque não se tenta uma regulamentação mais eficaz e menos burocrática dos serviços, a bem de todos?

Podia continuar, mas fico-me por aqui. Não encontro respostas, pelo que engrossar a lista, nem me parece acto sensato. A quem me souber responder a uma que seja, faça o favor. Gostaria muito.

3 comentários:

  1. Bem, as questões que colocas não têm resposta simples, nem sei sequer se têm resposta. Não conheço as soluções, mas é profundamente triste ver pessoas, como eu, com tu, viverem o fim da vida com esse sentimento de abandono, de miséria - são pessoas válidas, o que lhes falta em capacidade física, sobra-lhes em experiência de vida. Todos os "porquês" que referes têm origem no parlamento. É lá que se elaboram as leis, que se define o quê, o como, e o quando de toda a engrenagem social. A única forma de alterar este Estado "dito" Social, é a mudança de mentalidades. Falta humanidade à nossa sociedade, falta olhar com respeito e com carinho, falta muito "calor humano". Infelizmente, digo eu, a sociedade que deixas subentendida, é utópica, pelo menos até que quem nos governa tenha já incutida uma cultura de igualdade, de solidariedade, de fraternidade, de justiça, de equidade. Lamento ser portador de más novas, mas o futuro avizinha-se cinzento em tons de negro. A espécie humana deveria estar a evoluir rumo a essa sociedade onde a barbárie fosse erradicada, mas o que se passa, na realidade, é que estamos, enquanto espécie vista no seu todo, a regredir em direcção à nossa génese animalesca. Um leão, quando se alimenta, não pensa em partilhar. O mais forte, o mais capaz, o mais sortudo, come até não puder mais, e todos os outros contentam-se com os restos, se os houver. Tudo isto para estabelecer um paralelo entre os políticos e sua majestade o Rei Leão. Eles são o leão, nós somos os outros. Tanto se lhes dá se comemos ou morrermos à fome, tanto se lhes dá se temos onde dormir ou não, eles têm a pança cheia, porque se hão-de preocupar connosco? Entendo a tua revolta, a tristeza, e a compaixão. Não há moral nem solidariedade. Essa gentalha é precisamente como os leões - basta terem a barriga cheia para a vida ser perfeita. Porquê estender a mão a alguém, porquê ajudar?
    Analisando assim por alto o porquê das coisas, diria que a única forma de mudar esta situação, e tantas outras análogos, é através das próximas gerações. Os nossos filhos serão os políticos do futuro, os pedreiros do futuro. Sejam eles o que vierem a ser, se tiverem esses valores enraizados, a sociedade deles será muito melhor que a nossa, porque já não se comportarão como leões, serão pessoas, com respeito pelos seus semelhantes. Agora num tom mais alegre, porque há esperança no futuro, muita, os putos são o futuro, e está na mão dos pais e das mães proporcionar-lhes as "ferramentas" para a criação de uma sociedade mais justa e humanitária. Está nas tuas mãos, está nas minhas mãos, mas temos de ser pacientes, que eles demoram a crescer, mesmo que por vezes pareçam crescer demasiado rápido. Tenho a plena convicção que serão os nossos filhos/as a humanizar a nossa sociedade. Isto é só uma opinião, nada de vinculativo ou absoluto. Foi o que me ocorreu, assim de repente.

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  2. Concordo. Temo apenas que na geração vigente, já exista de tal forma enraizada a cultura do desleixo, que não seja possível a inversão. Pela minha parte, pela tua, por muitas outras de certo, a possibilidade será real, mas julgo não ter a relevância social que necessita. Os nossos jovens adultos, estão embrenhados em questões de outro âmbito.

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  3. Sim, também partilho desse receio. Sonho um mundo melhor, mais bonito, mais colorido para o meu filhote, mas sei que esta visão que partilhamos de sociedade é ainda uma quimera. Mas se todos os pais/mães tiverem o bom senso de educar correctamente os seus rebentos, talvez um dia, aquilo que é hoje a minoria silenciosa, se transforme na voz da maioria, e o mundo seja um sitio melhor.
    Um ponto que me deixou a pensar foi a velhice. Também vou envelhecer, talvez usar uma bengala, ou fralda, sei lá eu. Mas essa ideia junto com o relato que fizeste daquela situação perturbante, deixa-me apreensivo. Temo pelo meu próprio futuro, e não é propriamente a morte que me assusta, é mais a forma como vou viver os meus últimos momentos. Assusta-me essa ideia de abandono. Dei comigo a pensar se não seria melhor uma morte assistida, sem dor nem indignidade, a viver o final de vida marginalizado, como um peso morto, tratado como um empecilho sem valor nem utilidade, como se ser velho significasse perder a nossa condição humana...
    Isto leva-me a pensar também na quantidade de movimentos e associações que protegem os gafanhotos, e os gatos, e essas coisas todas, e investem nisso os seus recursos humanos e financeiros, enquanto situações como a referida por ti se perpetuam sem que ninguém mexa uma palha. Na velhice, valemos menos que um rafeiro, e ninguém se parece preocupar com isso.

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