O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
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A morte continua a fazer das suas. Semblantes carregados, esperando que algum me transmita a notícia, da qual todos fogem mas que, invariavelmente, todos sentem, significa quase sempre a mesma coisa. De repente um deles, cheio, intumescido, rebenta e diz-me o que eu já sabia. Não gosto dos momentos que precedem uma notícia triste, e isto na generalidade das situações da vida. Sinto-os com uma antevisão perturbadora, quase uma ânsia de confirmação. Das inevitabilidades que não queremos, por vezes puro egoísmo.
100 escudos
Lembro-me perfeitamente das notas de cem escudos. Azuis, e com o poeta desenhado. Não tenho nenhuma, que não sou desse tipo de armazenamentos. Faz-me falta todo o espaço que reúno em casa, é isso, e papeis a mais são sempre papeis a mais, em lugares nos quais o vazio fica muito melhor. Dizem que há muitas espalhadas por aí, qualquer coisa semelhante a quatro milhões de euros, ouvi dizer, embora me soe a exagero. Um desperdício sério em tempos de crise, guardado em nome da recordação.
Idolatrar
É fácil nos tempos que correm percebermos, e isto por diversas situações, que as pessoas nem sempre são o que parecem ser. Temos uma facilidade exacerbada na crença, ainda que muitas das vezes levemos com um conto do vigário muito mal contado, mas que vá lá saber-se o porquê, soube-nos a verdadeiro. E não trata isto uma dificuldade de discernimento, como por vezes podemos pensar, pelo menos em grande número dos casos ocorridos. Trata uma necessidade humana, quase como que uma vinculação que permanentemente procuramos, e que faz com que nos tornemos passíveis de incorrer em situações de desconforto, quando percebemos que as pessoas muitas das vezes não são o que parecem ser. E encontram-se estes fenómenos não só em relações próximas, mas até a um nível de carácter mais abrangente, com identificações ou venerações distantes, potenciadas normalmente pelos média, e que fazem com que ganhemos uma especial afeição por determinada figura, da qual nada sabemos, ou melhor, sabemos apenas o que ela nos quer transmitir, realidade essa que se encontra encerrada num ciclo restrito de comportamentos que se sabem esperados, normalmente agradáveis, minimamente coerentes, ou até o oposto, dependente da imagem que se quer fazer chegar. Mas por muito trabalhada e até consistente que essa imagem possa parecer, esconde por detrás da sama o ser que verdadeiramente se encerra ali, e que poderá nem ter nada a ver com o que vimos, escutamos, julgamos. O efeito seguinte, quando se desmantela o cenário e os ídolos viram gente, com podres hediondos e mal cheirosos e atitudes pequenas ou até imorais, é a desilusão, o espanto, ou a incredulidade, o que em casos extremos pode levar a negar factos, de tão longe que se estava deles. Esta realidade é um sinal mais do que óbvio, da fraqueza que nos governa a existência.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Dias
Existem dias em que por muito que interiorizemos que a vida tem um percurso, saibamos qual é, e não possamos esperar reviravoltas impossíveis, queríamo-las muito. Querer impossíveis é humano, faz parte de nós. Trata desejos, amores, ou outros sentimentos que nos saltam do peito e dos olhos, e ainda de outras partes do corpo, visíveis apenas aos mais atentos. Não que eles sejam escondidos, omitidos, disfarçados, estão lá para quem os quiser ver, a olho nu, por entre os cabelos, nas curvas dos braços, nos pés, quem sabe até por todo o corpo. Mas confundem-se, aninham-se, fundem-se, e talvez por isso deixem de ser vistos logo à partida. Lembro Adelaide, que todos os dias quer o marido de volta. Dentro de uma loucura que nunca percebi bem ser real, ou apenas protectora. Faz-lhe a cama com um preceito irrepreensível, e espera. A única coisa que esta loucura tem de defeito, ou melhor, não será a única, mas será por certo a mais pungente, é o momento da consciencialização de que afinal ele não volta. Mas restam-lhe sempre os momentos antecedentes, a espera, ainda que infundada, do que já nunca vem. A espera ensina-nos coisas, torna-nos pacientes, faz-nos crescer, ou então enlouquecer, o que neste sentido também poderá ser considerado um ensinamento, uma aprendizagem, uma adaptação. Real ou fingida, é esta a vida dela, num misto de sonhos e desejos, vontades e impossibilidades.
Julgo que mais para o final da vida, uma das principais loucuras que encontro trata isto mesmo. Até hoje, e após debruce intenso sobre diversas teorias sobre o assunto, ainda não houve quem me conseguisse convencer, de que determinadas atitudes consideradas como excessivas, não são mais do que um embalar propositado, um querer que se seja sem se ser, uma réstia de esperança de que venha o que já não pode vir. Ele hoje não veio ver-me, disse ainda há pouco. Hesitei, mas acabei por proferir um, amanhã talvez possa vir. Ela sorriu.
Julgo que mais para o final da vida, uma das principais loucuras que encontro trata isto mesmo. Até hoje, e após debruce intenso sobre diversas teorias sobre o assunto, ainda não houve quem me conseguisse convencer, de que determinadas atitudes consideradas como excessivas, não são mais do que um embalar propositado, um querer que se seja sem se ser, uma réstia de esperança de que venha o que já não pode vir. Ele hoje não veio ver-me, disse ainda há pouco. Hesitei, mas acabei por proferir um, amanhã talvez possa vir. Ela sorriu.
Amoras e azedas
Ela subia, eu descia. Encontramo-nos a meio da escada, grosso modo falando, e ficamos por um bocado. Recordamos umas quantas coisas que descobrimos juntas, incluindo o caminho de regresso do meio de um matagal, onde uma vez nos perdemos. Ouvíamos gente ao longe, sinos de cabras, carros que passavam, e só encontrávamos arvoredo denso e escuro. Passado um bom bocado, já quase noite, chegamos a terreno conhecido e juramos que nunca mais nos aventurávamos numa daquelas. Mas aventuramos, uma série de outras vezes, e talvez seja por isso que ainda hoje conheço os muros da serra, como as palmas da minha mão. Seguidinhos, feitos em pedras disformes, que encaixam umas nas outras de forma tosca e grosseira. Guardam as terras que pertencem às gentes, e as vacas e ovelhas que pastam no feno. No meio existem lagoas, uma delas do meu avô. Umas vezes tem água, outras vezes não, mas sapos grandes e verdes tem quase sempre. Só deixou de ter com o tempo, meninas perdidas. Hoje as meninas não brincam no mato, nem sequer as da aldeia. O mato com o tempo também se tornou um lugar perigoso. Por causa disso, não vão poder comer amoras doces e azedas branquinhas. E nem sequer fazem a mínima ideia do que perdem.
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