terça-feira, 4 de novembro de 2014

desatinos

Come devagar e com sabor. Queixa-se pouco, quase nada. Dizem que está consciente, mas as falhas no discurso dizem-me que tem dias. Concluo, abusivamente, que existirão alturas afortunadas e outras muito menos do que isso. Não consigo passar isenta, mas não tenho muito para lhe dar a não ser meia dúzia de palavras, um sorriso amarelo, uma palmada nas costas. Pouca coisa, quase nada, talvez melhor do que o silêncio. Procuro sinais, sou invasiva com os olhos. Perscruto medos, examino anseios, sondo manifestações de transtornos como quem espera alcançar o pretexto para que a revolta se declare, e o choro brote. Normalmente não chego lá, mas fico sempre desatinada. A ignorância no destino, acreditem, é talvez uma das nossas maiores bênçãos. Não há nada mais incómodo do que uma morte anunciada. 

5 comentários:

  1. Pergunto-me às vezes se a desistência de qualquer réstia de esperança, por não haver nada a fazer, é o que permite alguma paz interior nessa situação.

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    1. Na minha fraca experiência, não sei se há realmente paz interior. Se há uma desistência e um sossego, ou se há um permanente estado de choque abafado. Não sei se há um agradecimento pelo que se teve, se uma tristeza infinita pelo que se perderá. Não sei se há vontade de aproveitar se um coração teimoso, que insiste em não parar de bater...

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    2. Enfim......só sei que nada sei!

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