sábado, 10 de dezembro de 2016

anel

Há dias em que canso os passos que apresso avenida afora, a caminho do destino. Não há palavras que saiam a direito, voz que me possibilite o entendimento, gesto que favoreça o encontro, e sossego que me alimente o espírito. Penso sempre muito devagar quando isto acontece, e temo ser aqui o cerne da questão. Fosse eu de enxurrada, como Rosalinda, e não haveria decisão que me morresse nas mãos. Fosse eu conformada, como Baptista, e não haveria acontecimento que me suscitasse preocupação. Fosse eu egoísta, como Alice, e não haveria peso que me encorpasse a consciência. Assim, fraca e em cuidados, como Carmina, vou ganhando umas rugas nos cantos dos olhos, uns tremelicos nas pontas dos dedos, uma dor no estômago por fraqueza, e uma soltura por nervos acesos, regulados intensamente por pernas inquietas, fracas, demasiados fracas para me conter. Nestes dias não há mesinhas que me dêem sono à noite. Não existem cafés que me acordem ao dia, sacudidelas que me espevitem no arranque, afagos que me apaguem no descanso. À noite fico mais integrada, o escuro ajuda-me a esconder de mim os meus medos mais antigos, e nunca os tento procurar. Fecho os olhos muito tempo, enrolo-me no escuro do quarto, encaracolo-me em posição de feto e imagino-os fechadinhos a sete chaves no cofre das jóias, dentro de uma caixinha com um laço perfumado, almofadados a veludo bordeaux, quentinhos e adormecidos por muitos e muitos anos. Há dias em que na manhã seguinte, nem ouso ir buscar um anel.

(Fica ainda usualmente a faltar-me o relógio, que dorme sempre ao lado do depósito das jóias. Sem anéis, vou andando. Atrasada é que não aprecio, sendo este o maior custo da minha defesa.)

4 comentários:

  1. tão bonito, CF.
    tenho uma caixinha dessas, onde guardo os medos mais antigos, dentro do meu coração.

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    1. Faz mal, Laura. Brinquei com o assunto e também guardo muito, mas sou sabedora do erro tremendo que cometo... Saem pela pele e pelo corpo, sob as mais diversas formas. Não há chave que os feche de vez... :)

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    2. pois é, e ainda por cima nos fazem escrever :)

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