quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

demónios

O mundo teima em despersonalizar os seus habitantes, e eu zango-me cada vez mais com esta insistência. Ser pessoa não tem de ser numa norma explicita e impessoal, onde a guerra com o interior se assume como um batalha que vencemos, ou então morremos por dentro. E morrer por dentro todos os dias um bocadinho deve ser uma morte dura de se morrer. Morre-se devagarinho na escola, quando precisamos de aprender devagar e nos ensinam depressa. Morre-se devagarinho nos intervalos, quando nos monitorizam os passos e nos escolhem pela roupa que vestimos, e morremos muito mais se somos feios, se temos mau gosto ou pouco dinheiro, se não mudamos de mochila muitas vezes, ou se o casaco tem um buraco no cotovelo. Morremos devagarinho quando nos obrigam a ler o que não gostamos e nos levam para longe das histórias de amor que se escondem debaixo do travesseiro, mas sob as quais as aulas não nos permitem discorrer. Morremos devagarinho quando nos impõem ideais, quando nos vendem religiões, quando nos cortam sonhos, acrescentam metas, ou limitam o coração. Morremos devagarinho quando temos de esconder muitas dores por vergonha de as chorar, quando engolimos zangas que picam na garganta e no estômago, quando somos obrigados a vender a alma a quem insiste que a vida não é só nossa, com base em alicerces estúpidos e francamente menores. Morremos devagarinho quando nos sujeitam a guerras que não são nossas, mas que nos agarram pelos colarinhos da camisa e nos apertam o pescoço, com mais força do que uma forca de corda grossa e apertada. Gritar de uma vez pode ser que assuste quem insiste nesta glória. Pode ser que esta gente morra de medo, que cale a voz, que caia para o lado e deixe o sangue dos outros escorrer por onde lhe apetecer. Esforço-me tanto para que gritem, que por vezes dou o meu grito a quem o queira. Nessas alturas fico sempre muito rouca, sobro pouco para mim. Dormir devolve-se quase sempre a voz, mas no dia seguinte acordo invariavelmente um bocadinho mais cansada do mundo. A despersonalização é o demónio do século. Começa no grito do parto e acaba no fecho do caixão.

(Despersonalize-se tudo, despersonalize-se o mar e o céu, despersonalize-se a água e o ar, despersonalize-se a justiça e a lei, despersonalize-se a nuvem que passa, despersonalize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto despersonalizar, despersonalizem-se os estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas despersonalizadas, mediante concurso nacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, despersonalize-se também a puta que os pariu a todos."

Com o maior respeito do mundo pelo grande José Saramago, que em bons tempos escreveu sobre a privatização, in Cadernos de Lanzarote, Diário III, Pág. 148)


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