segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

do saber de coisa nenhuma

Decidi mudar de método quando o anterior não me chegava. Fui percebendo devagarinho que as teorias que abordam o comportamento são todas elas limitativas, o que uma explica a outra esquece, o que numa se encaixa, na outra fica de parte, o que numa se trabalha, na outra nem sequer se torna alvo de consideração. Debrucei-me sobre todas, ao longo dos anos. Desde as mais comportamentais às mais construtivistas, passando pelas sistémicas, as psicanalíticas, as relacionais. Fui espreitando de perto cada uma delas, aprofundando as que me faziam mais sentido, salpicando a minha acção com o que cada uma me dava de mais produtivo, mas só mesmo quando cheguei a um modelo mais integrativo encontrei respostas satisfatórias. Porém descobri que aprender aos quarenta, não é igual a aprender aos vinte, e só depois de muito ruminar o assunto descobri o porquê. Aos vinte tudo se aloja e se entranha na voz, o cérebro desenrola à velocidade de um falcão apressado, as palavras escoam no ritmo certo, nem lento nem rápido, numa harmonia que assusta pela fluidez da perfeição. Faltavam-me anos de prática, mas a minha mestria cobria isso tudo, com muitíssima arte e uma desenvoltura impossível de conter. Hoje, possuo o que o terreno e os anos nos dão. Tenho milhares de horas de execução prática, centenas de histórias ouvidas, compêndios inteiros de vidas que me passaram pelas mãos e pelo corpo, numa interacção regular e proactiva; possuo milhões de defesas desmontadas, muitas tarefas relacionais executadas, zangas expressas em muitos murros, e tristezas choradas em toneladas de lencinhos de papel mentolados, os meus preferidos de todos os lenços. Mas na verdade sinto cada vez mais que sei muito pouco, e que começar de novo numa vocação mais global, é um objectivo demasiado para mim. Sinto-me hoje, todos os dias, francamente mediana. Sinto-me, à medida que descubro mais, cada vez mais aprendiz. Sei menos, muito menos, do que quando saí dos bancos da faculdade, profundamente capacitada e direccionada para o que a teoria sabiamente me deu. A teoria é francamente boa para nos fazer crer que sabemos. A prática, quando exercida com vontade e coração, devolve-nos a única realidade possível: não saberemos nunca rigorosamente nada. 

6 comentários:

  1. Quanto maior o conhecimento, maior a noção do que não se sabe. Diz-me um amigo que quanto mais perto estamos da luz, maior a sombra :)

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  2. Não sabemos ou não temos certezas? Não é diferente?
    Eu acho que sei mais, mas que não tenho certezas nenhumas. E penso que não tenho certezas precisamente porque sei mais.
    Não sei. Talvez esteja errada.

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    Respostas
    1. Teremos menos certezas, sim. E isso faz clareza do nosso lugar, ou seja, e pela minha parte, sei hoje muito menos do que o que já soube um dia... Digo eu... :)

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  3. É precisamente o que sinto.
    (Excepto os lenços de papel, os meus são os brancos do continente ao lado de uma garrafa de água de plástico) :)

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