domingo, 22 de março de 2020

medo

Talvez não haja emoção mais visível do que o medo. Por muito que a tentem esconder escapa por entre os gestos, na ânsia do sossego que insiste em resistir. Nota-se algum esforço teatral para que a normalidade se faça transparecer, quebrada pelo indómito " temos de estar longe, temos de ficar em casa", que surge na validação da ausência do cumprimento habitual. " É a vida", dizemos todos, obedientes e impotentes perante a força maior do desconhecido, numa racionalização que não pretende mais do que acalmar o nosso interior. A alegria por sua vez é a emoção da vida, expande-se de outra forma, é natural, mais ou menos subtil. A zanga pode viver submersa em nós por uma vida, deixando marcas no corpo, mas conseguindo ser mestra em matéria de contenção e recato. A tristeza, ai a tristeza. A tristeza vive na poesia, nos dias e nas noites, nas memórias, nas luas, nas recordações e nas melancolias, e consegue ser só nossa como nenhuma outra pode ser. É o medo, sim, é o medo. O medo é a maior de todas as verdades, não há olhar que o esconda, não há passo que não o denuncie. 

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