Todos os dias bem cedo, distribui migalhas de pão seco aos pássaros, que se abeiram dele em bandos de largo número. Os seus cabelos, muito brancos e fartos, adornam-lhe uma cabeça cansada, malfadada pelos dias duros, pelos anos longos, pela frieza das horas. Mais logo, no fim da tarde, os restos da casa servem de alimento para os cães que se vagueiam nas ruas, faça chuva ou faça sol, e que se aninham de mansinho debaixo dos carros e das varandas, desdenhados por donos ingratos e cheios. Mal o avistam, e na iminência do alimento para o dia, correm em sua direcção, de rabos alçados, numa manifestação de agrado típica daqueles animais, tão dados como mais nada, a quem os trata, e até, por vezes, a quem os destrata. O velho, numa paciência vinda do fundo da alma, dá-se-lhes por inteiro, agachando o costado, já doente e retorcido, a fim de poder cumprimentar os seus fiéis amigos. Ao longe, costumo mirá-los, e reflicto. Reflicto no desprezo que sinto darem-lhe, como se ele de nada valesse ao mundo, porque é velho e isolado, e porque recebe dos animais o que mais ninguém lhe dá. É azedo, oiço dizer, de bocas que não abrangem que o azedume das palavras, nasce amiúde dos destratos recebidos, que se transformam cá dentro, em gestos rudes e defensivos, que facilmente expelimos, se ameaçados. Reflicto ainda na nossa carência de afecto, continuamente rebuscada onde quer que o consigamos buscar. Não vivemos sem ele, é um facto. Em última instância, e já em divagações mais profundas, penso o altruísmo em estado puro. Inexistente, julgo poder dizer. Esperamos sempre o reverso, nem que seja em forma de sorriso, lambidela, ou outra que nos possam dar. Coisa que de imediato arrumamos por dentro, e transformamos em sossegos. Não trata egoísmo, mas necessidade.
O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
domingo, 4 de setembro de 2011
Factos
E pronto, já está. Se fizermos contas, num instante chegamos a cerca de metade do salário, tudo para mais, no que confere à percentagem de pagamento de impostos dos rendimentos mais elevados. Consistirá isto numa tentativa de acabar de vez com o poder de compra, ainda existente em alguns Portugueses? E de aceleração, no que toca a levar o Pais para um caminho estanque e parado, pior ainda do que o que já está? Não tenho formação base em economia, mas ainda assim, a sensibilidade, comum a todos nós, permite-me perceber o risco em que incorremos, ao tomar este tipo de medidas. Carecemos de sair da crise. Temo que não seja este o caminho.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Cebolas
Não me interessa lá muito que me julguem chata. Nem tampouco me importa que a terra em peso se passeie por ora na feira da cebola. As festas são uma coisa gira que se farta, atenua as neuras da crise, fazendo até esquecer, quiçá, as palavras de Vitor Gaspar. Entre um copo de tinto e uma alheira de Mirandela, o discurso escorrega para a diversão, e o povo gosta. E precisa. Não tenho nada contra, a sério. Poderia apenas ser um pouco mais longe da minha casa. Só o bocadinho suficiente para que as pessoas pudessem estacionar, e entrar na porta sem desvios forçados. E para que pudessem dormir antes da madrugada, a um qualquer outro som, que não folclore. E com qualquer outro cheiro, que não a chouriço. E tenham a amabilidade de não me perguntarem nunca se já fui à feira, se se prestarem ao obséquio. Que eu não faço outra coisa desde ontem, e provavelmente, pouco mais farei até Domingo. A banca da esquerda, mesmo à saída da porta, tem o meu perdão. Vende pão Alentejano. A da direita, cravejada de vestidos esvoaçantes e floridos, e de bugiganga colorida, é capaz de não passar impune.
Inverno
Gosto sempre dos primeiros dias de chuva, depois do verão. O facto destes surgirem ainda na estação, não me faz qualquer diferença. Ainda ontem, no rescaldo do dia, pego numa revista de moda, e passeio os olhos por casacos, cachecóis, camisolas e outros abafos. Na minha cabeça, surgem de imediato combinações estrondosas que desejo mesmo muito vestir. O verão, as esplanadas e o calor, são bons, mas não são meus. Sou do Inverno, definitivamente. Todos nós pertencemos a algo. A terras, a sítios, a gente.
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