sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Estereotipos

A nossa incapacidade em compreender determinadas situações, deixa-nos entregues a estereótipos rígidos, que mais não são do que formas de nos fazer ordenar dentro, a desordem que encontramos fora. Sendo assim, juntamos gente com gente, bichos com bichos, dinheiro com grandeza, pobreza com queixume, enfim, um ror de combinações que atribuímos mesmo sem real conhecimento, no alienamento patético, do tudo arrumado. Daí o nosso espanto quando encontramos uniões imperfeitas, daquelas que não esperamos ou concebemos, como se no mundo houvesse a obrigatoriedade da harmonia, e a diversão da mistura, fosse coisinha para nos tirar o sossego, quanto mais não seja porque nos escapa à previsão. Não era assim que tinha de ser. Exige-nos que pensemos sobre o assunto, a fim de encontrarmos algo que justifique tal ajuntamento, em nada perceptível, lógico, fácil de compreender. E nós gostamos de facilidades, género Brangelinas. Sentiu isso tudo ontem quando olhou para ela, extraordináriamente desajeitada, anafada e sem graça, embrulhada numa calça azul justa, mal composta por uma camisa branca gigantesca. Uma mulher que atribuiria sem qualquer tipo de problema a um homem pequeno e gordo, sendo assim que tudo combinaria verdadeiramente. Impressionou-a a descrição do companheiro, de porte alto e correcto, com muito bom gosto, irrepreensível em tudo o que deixava transparecer. Fora o resto, já sabemos. O resto é aquela coisa, que como não se vê, não conta lá muito. Perturba-a todo e qualquer tipo de desarmonia extrema, coisa que lhe povoa amiúde a existência, e com a qual já deveria lidar com muito mais destreza. Até porque harmonia é coisa do além, ou de qualquer um outro sítio distante, que raramente toca ou encontra.
No final da noite saíram ambos. Foi quando vê na camisa dele, uns botões de punho, cor madre pérola, muito redondos e brilhantes, que ficou verdadeiramente chocada. Nem com esforço. De forma nenhuma, aquilo tinha razão de ser.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sexto sentido

Existem coisas que prevejo à distância. Algumas delas desejo que aconteçam, outras, estou mortinha por lhes escapar. Na iminência, e quando as começo a sentir ao de perto, fico em expectativa, mesmo quando as não quero. Num misto de fuga, e ao mesmo tempo de ânsia, de que as minha premonições se verifiquem. Uma vaidade, ou coisa do género. Que não gosto de ferir a troco do nada. O sexto sentido é um bom aliado na vida de qualquer Mulher.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Enganos

As palavras deveriam ser coisas difíceis de proferir, passíveis até de ficarem entaladas, quando ditas indevidamente, e contrárias ao que se sente. Mas não, que são amenas, mornas e adaptáveis, saindo do nosso corpo com destreza, vindas das bocas que espelham o que se deve dizer, o que se espera, o socialmente correcto, e não o que lhes vai dentro, que de mansinho se guarda. Não que julgue a obrigatoriedade da total partilha, logo eu, absoluta defensora de privacidades, mundos nossos e de mais ninguém, ou então de mais alguém que nos escute, e que queiramos que nos saiba a existência interna. Mas ainda assim, e em determinadas circunstâncias, o embuste disfarçado, e apenas perceptível ao mais atento, deveria ser punido por quem de direito. É que podemos sempre, e em caso de necessidade extrema, utilizar o silêncio ou a omissão, muito mais sensatos e inofensivos. Nem me parece apropriado um castigo por demais punitivo, que somos pecadores, e quanto a isso, não há que se faça. Mas um castigo suficientemente amargo para que na próxima se tome cuidado, e se deixe de proferir baboseiras, que mais não são do que afrontas a quem escuta. Um retrocimento de língua, um aperto de lábios, poderia perfeitamente servir. Nos casos mais graves, um engasgamento forte e assanhado. Quando usam esta arma ilegal comigo, a coisa pode correr mal. Mas engraçado, como pode ser perdoável, que a inteligência é predicado capaz de me encantar, e sou pessoa para quase desculpar quem me tenta enganar com perspicácia. Uma fraqueza, uma rendição. Aliada a uma sensação de vitória, totalmente patética, sei disso, de que a enganada, vai-se a ver, e não sou eu.

domingo, 11 de setembro de 2011

Lamego

Ainda me lembro dos seus olhos quando falava em Lamego. Uma terra já muito distante, como distante lhe era o resto do mundo, que pouco se lhe dava, desperdiçando-se por outras gentes, outras paragens, que não as suas. O seu mundo era pequeno, numa improbabilidade estranha, pelo impossível de ser, e ao mesmo tempo tão real como a dor que lhe corroía o peito todas as noites, quando se deitava na cama de madeira carunchosa, e se tapava com o cobertor mordido das traças que lhe invadiam o espaço de roupeiro que lhe competia, e lhe comiam a roupa, tal e qual a vida lhe comia a alma. Sorria pouco. De quando em vez, deixava escapar dos olhos verde mar uns laivos estranhos de contentamento, quando falava da sua avó, perdida naquela terra onde um dia iria voltar. Mas só aí, e mesmo assim, o sorriso dos olhos era abafado pela rudeza do rosto, que não se atrevida a tal emoção, não fosse o seu corpo, ingrato, penitencia-lo por tal afoite, tal e qual como o penitenciava quando chorava, ou arriscava. Ficava triste, e não podia. A única coisa que lhe era permitida, era a apatia dos dias, que poderiam surgir frios, quentes ou amenos, que em toda e qualquer situação se adaptava em jeito de acomodação, pacífica e silenciosa. Precisava de sossego, para conseguir esperar pelo dia em que voltaria a casa de sua avó, em Lamego. Cheguei a pensar o que lhe traria aquela terra de nome pouco bonito de tranquilo à existência. O que lhe daria de tanto, ao invés do resto do mundo, que lhe fugia, é certo, mas que ao mesmo tempo nem queria conhecer. Os sonhos também têm disto. Permitem-nos fazer caminhos, ou então, ao invés disso, fecham-nos a vista, e seguram-nos para sempre. À espera.

Gente

Exactamente há dez anos, também a minha vida, a minha, mesmo minha, e não só a do mundo todo, mudou. Atrás de um sonho, que temos esta pretensão eterna de sonharmos o que queremos para nós, como se a eles nos pudéssemos entregar. Desde sempre, ou pelo menos desde que me lembro de ser gente, que procuro com afinco errar pouco, ou melhor, escolher sempre um caminho mais ou menos acertado. Desde sempre, ou pelo menos desde que me lembro de ser gente, que erro, fortemente, a cada dia que passa. Às vezes canso-me disto, mas de nada de vale. Provavelmente, e estando já por tudo, errarei até sempre. Enquanto for gente. Ser gente, também é isto, concluo.

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