O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
...
Perturbam-me sempre mentes sãs presas em corpos precocemente doentes. Tanto quanto o inverso, devo dizê-lo. A incongruência da vida perturba-me, é isso. Bem como as limitações vindas cedo demais.
Crise ( Ups, que palavra meu Deus)
Vi-a hoje como tantas vezes, logo de manhã. Na cabeça, um gorro de malha grosseiro de cor castanha, arruma-lhe os parcos cabelos e aquece-lhe as orelhas. Um casaco do mesmo tom abafa-lhe o resto de um corpo já velho, mas ainda muito ágil. Passeia-se pela cidade enquanto sorri a toda a gente, nos dias bons claro, virando a cara nos outros, que são alguns. No fundo aqui como em tudo, e não obstante a figura um tanto ou quanto caricata, e a mente significativamente desadaptada, é igual a todos nós (e quem sabe nisso também). Lá dentro do cérebro, vai sempre uma crise, que se verbaliza todos os dias, a todas as pessoas que encontra. - É a crise, é a crise!! A crise da boleia que lhe falta para ir à terra, a crise da mãe já velha que lhe cortou o telefone, a crise do frio, a crise de alguém que morreu antes do tempo. Natércia não tem disso conhecimento, mas cada vez mais tem mais razão na expressão que a acompanhou vida fora. Quem sabe até estamos na presença de algum ser premonitório, uma raridade na humanidade.
Estamos em crise (Juro? Juro!). De dinheiro, de valores, de ambições. Todos ou quase sofremos de pelo menos uma.
Estamos em crise (Juro? Juro!). De dinheiro, de valores, de ambições. Todos ou quase sofremos de pelo menos uma.
...
Abundam hoje em dia reflexões sobre os Portugueses e a sua conduta, eu própria já as tenho feito. Tenho dias em que quase chego a julgar, que a pensar e a diagnosticar somos mesmo muitíssimo bons. Falta talvez alguma ligação no caminho da acção. Ou isso ou qualquer outra coisa. Os diagnósticos por vezes têm destas inerências, a constatar também em outros lugares de destaque.
Vidas
A casa tinha um alpendre delicioso. Os alpendres são naturalmente deliciosos, funcionam como que um abrigo, que nos resguarda e ao mesmo tempo nos permite o desfrute da noite, do sol do dia, da chuva que cai mesmo ali ao lado. Chovia muito. Ouvia-se cair com força já há horas, e intensificou-se pela manhã morna de inverno. Saiu para fora com um chá quente nas mãos, e sentou-se a olhar a envolta. Ao longe o rio enchia devagarinho, gota a gota, apresentando hoje um verde muito escuro, quase negro, tal a força da água que o batia. Um barquito pequeno baloiçava descontroladamente, preso a uma corda na berma, forte o suficiente para que não conseguisse fugir e fazer-se ao mundo, um local grande demais para ele. Naquele exacto momento. O cão, dentro da casota que era sua, aninhava-se do tempo que lhe deixa os pelos molhados e hirtos, e correu para ela mal a viu. Ficaram os dois debaixo do alpendre enquanto as mãos dela o embalavam. O restolhar das árvores faziam um barulho intenso, quase assustador, cortado por pequenos períodos de acalmia enganosa, de imediato sacudida por algum vento mais forte. A casa rangia de medo, num queixume sentido que de nada lhe valia. Caiam folhas desmesuradamente, das poucas que ainda haviam, que voltariam a nascer na próxima primavera. Tal como cão correria, tal como o barco navegaria. Tal como ela viveria. Talvez até o inverno, continue a acabar sempre.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
O Piano
(Texto originalmente escrito por mim em Julho do ano passado. Fez-me sentido postá-lo de novo aqui, até porque, e no ano de 2011, foi o que mais falou de mim, num sussurro precioso que poucos escutaram)
No meio da sala repousa um piano empoeirado, que denuncia a ausência de dedos a calcá-lo, tal e qual o corpo dela. Mesmo ao lado, um conjunto de pessoas conversam animadamente, no que lhe parece ser um aniversário de uma senhora, alta e roliça, que se pavoneia deliciada entre os convidados, envergando um vestido azul turquesa, muito curto e decotado. Os copos, tilintam numa orquestra sentida e ouvida, num movimento permanente de risos e de goles, uns doces, outros amargos, todos eles muito frescos. No tecto, inúmeros panos coloridos guardam um ambiente que se quer calmo e de cheiro forte, apenas perturbado por um ruído sombrio de vento, que entra nas frestas estreitas das janelas. Apetece-lhe sentar e tocar o piano. Ela, que nunca na vida tocou num. O banco, redondo e nivelado, parece-lhe de um conforto imensurável, no qual poderia por certo fechar os olhos, que ainda assim, sentiria e veria todas as teclas, unidas, lado a lado, mas tão particulares como nada mais. As mais graves, as mais agudas, as brancas, as pretas. Sente um desassossego. Passeia os olhos mais um pouco, na vã esperança de encontrar algo ou alguém, com mais intenso chamamento, temendo acabar por ceder, que o seu fraco corpo, dirige-se com força para aquele imenso objecto musical, numa ausência de vontade nunca vista. Perde-se um pouco no terraço, onde uma chuva miúda e teimosa fustiga uns candeeiros acesos, que abanam ao vento. O fogo da fogueira arde devagarinho, quase a sumir-se na agrura do inverno, que por vezes julgamos dormente, mas que sempre se encontra no exacto local onde deve estar. Volta com o olhar para o piano, e leva-lhe o corpo também. Afasta a flor que o enfeita, senta-se, e inicia uma melodia doce, e ao mesmo tempo intensa e muito ritmada, como se sempre se tivessem pertencido. Na envolta, ninguém a ouve, continuando o cenário centrado na loira viçosa que sorri. O piano, por sua vez, e sedento de toque, escorrega-lhe nos dedos. Fundem-se num tempo impreciso, de companhia perfeita, num instante infinito. No final da noite, deixam-se. Ela, abraçada por ele, como se das entranhas lhe tivessem nascido mãos, braços, e todo um corpo, ao invés de música. Ele, crivado de dedos pequenos e magros, no meio da densa poeira que o cobria.
No meio da sala repousa um piano empoeirado, que denuncia a ausência de dedos a calcá-lo, tal e qual o corpo dela. Mesmo ao lado, um conjunto de pessoas conversam animadamente, no que lhe parece ser um aniversário de uma senhora, alta e roliça, que se pavoneia deliciada entre os convidados, envergando um vestido azul turquesa, muito curto e decotado. Os copos, tilintam numa orquestra sentida e ouvida, num movimento permanente de risos e de goles, uns doces, outros amargos, todos eles muito frescos. No tecto, inúmeros panos coloridos guardam um ambiente que se quer calmo e de cheiro forte, apenas perturbado por um ruído sombrio de vento, que entra nas frestas estreitas das janelas. Apetece-lhe sentar e tocar o piano. Ela, que nunca na vida tocou num. O banco, redondo e nivelado, parece-lhe de um conforto imensurável, no qual poderia por certo fechar os olhos, que ainda assim, sentiria e veria todas as teclas, unidas, lado a lado, mas tão particulares como nada mais. As mais graves, as mais agudas, as brancas, as pretas. Sente um desassossego. Passeia os olhos mais um pouco, na vã esperança de encontrar algo ou alguém, com mais intenso chamamento, temendo acabar por ceder, que o seu fraco corpo, dirige-se com força para aquele imenso objecto musical, numa ausência de vontade nunca vista. Perde-se um pouco no terraço, onde uma chuva miúda e teimosa fustiga uns candeeiros acesos, que abanam ao vento. O fogo da fogueira arde devagarinho, quase a sumir-se na agrura do inverno, que por vezes julgamos dormente, mas que sempre se encontra no exacto local onde deve estar. Volta com o olhar para o piano, e leva-lhe o corpo também. Afasta a flor que o enfeita, senta-se, e inicia uma melodia doce, e ao mesmo tempo intensa e muito ritmada, como se sempre se tivessem pertencido. Na envolta, ninguém a ouve, continuando o cenário centrado na loira viçosa que sorri. O piano, por sua vez, e sedento de toque, escorrega-lhe nos dedos. Fundem-se num tempo impreciso, de companhia perfeita, num instante infinito. No final da noite, deixam-se. Ela, abraçada por ele, como se das entranhas lhe tivessem nascido mãos, braços, e todo um corpo, ao invés de música. Ele, crivado de dedos pequenos e magros, no meio da densa poeira que o cobria.
Subscrever:
Mensagens (Atom)