sábado, 5 de janeiro de 2013

relógios

Permitir-me que o despertador não me acorde é um luxo que reservo para dias esquecidos no calendário do ano. Assim um entre outros, muito de longe em longe, quando o corpo reclama pela cama quente muito além do que me é possível suportar em sossego. Nessas alturas acautelo os afazeres, componho as cobertas macias, armazeno alimentos na véspera que me permitam ao estômago o conforto necessário para que não acorde ao primeiro sinal da manhã e deito-me para adormecer quando o cansaço quiser, sem imposições de urgência ou delongas obrigatórias. Deixo depois correr a noite até que o dia me entre pelo corpo, sem  atentar a horas ou a outro tipo de deveres incumbidos seja pelo que for. Depois quando descubro que o sol de Inverno resolveu estar nesse dia, sucumbo à perfeição da natureza que acorda junto comigo e me permite a deambulação quase matutina, apenas limitada pelo sono que se quis longo. Mea culpa, claramente. Saio e de entre o destino escolhido surge um outro, que a feira encontrava-se  languidamente estendida sobre a calçada, debaixo do sol, e reunia dezenas de livros bafientos por entre os quais me passeei sob o olhar atento das velhas sentadas em bancos armados à ocasião. Todas tinham um avental de bolsos largos e um chapéu de palha, cada um com sua função específica, um para guardar o sustento, o outro para guardar o corpo, vai-se a ver e servem mais ou menos os mesmos propósitos, embora de formas distintas. O regresso a casa foi feito por entre uns locais predefinidos, onde entro e saio em nome da vaidade, um terrível feitiço que me persegue a existência. A poder, livrar-me-ia dele para todo o sempre, confesso, que só assim teria percorrido a feira totalmente descansada. Ainda que sem se querer, admitamos, o relógio toca sempre alguma vez.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

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Numa manhã que pode ser como a de hoje, esqueço as responsabilidades e alheio-me de um assunto que me pertence, faço orelhas moucas, mãos preguiçosas, visão adormecida. Nessa manhã abandono a casa sem separar os moradores, ou seja, esqueço o fecho da porta do quarto do peixe, o isolamento da gaiola do rato, a reserva estudada do espaço da gata. A estar de feição, arrisco deixar tudo num só espaço, deixando a lei da natureza fazer o resto, e é só esperar com calma para acabar de vez com o rodopio atrapalhado das manhãs. Desculpem-me a barbaridade, mas é que estou precisada. Isto foi hoje, logo após a confusão da gaiola quase desmontada e com iminente fuga do habitante, acompanhada de um animal que me subia para o ombro em miares desesperados, no exacto momento em que passavam dez minutos do toque da entrada da escola do meu filho, que entretanto estava a trancar o peixe. Fiquei assim, mas estou convicta de que até ao fim do dia isto passa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Balões

Lembrar-me-ei sempre do dia em que a irmã Rosa me descobriu uma artimanha onde eu escrevera a preceito os mandamentos da lei de Deus. O meu teste foi de imediato anulado e até hoje nunca consegui decorá-los a todos, fiquei ligeiramente angustiada com a situação, devem perceber-me, foi a verdadeira responsável pela minha vergonha a par e passo com a minha colega de carteira, que em desespero de causa resolveu roubar-me a cábula do colo e deixá-la cair no chão. Também ela, a pobre, não tinha na ponta da língua a arte de não pecar. Hoje encontrei-a na escada e mais uma vez relembrei o episódio. Voltei a tentar perceber o porquê daquela mulher que apenas deveria rezar ter sido astuta o suficiente para me apanhar em falso perante tamanha falta. Sorriu-me, já velha e encarquilhada, desejou-me um bom ano e seguiu em frente com cabeça baixa. Já não ensina nada nem ninguém, cuida agora de algumas irmãs da congregação, rezará por certo de dia e de noite por almas pecadoras que lhe cruzam o caminho e por um mundo melhor. Veio-me ainda à memória uma outra, com percurso académico e pessoal, mas que perante  adversidades de carácter maior escolheu a clausura como forma de prosseguimento. Precisava de se afastar do mundo dos vivos, de se emaranhar nas profundezas da oração e da meditação, as únicas capazes de a guardarem das asperezas atormentadoras, para que passasse a existir sossegada. Nunca mais a encontrei. Imagino-a por ora abrigada por quatro paredes que lhe permitem esse viver tranquilo, sentando-se todas as manhãs na capelinha do convento onde por esta hora entrarão raios de sol que a farão lembrar os dias em que subia montes ao meu lado. Houve um dia histórico em que subimos um muito alto carregadinhas de balões coloridos, acompanhadas de um conjunto de rapazes do internato. Tropeçamos umas vezes pelo caminho, ponderamos desistências rapidamente esquecidas, esfolamos joelhos que sararam instantaneamente no ar bravio dos montes. Chegamos lá acima, meio dia passado, e encostamos no pilar de sinalização que vergava ao vento que nos levaria os balões todinhos para muito longe, sob o símbolo da liberdade. Ficamos todos a vê-los subir, saracoteados pelo vento, que se calhar era mais ou menos como a vida que ela enjeitou. Às vezes, tenho saudades dela.

( Disseram-me em tempos que os contactos com o exterior são extremamente controlados. Que são obrigadas a receber o pão por uma fresta sem que o padeiro as possa vislumbrar. A ser verdade, vejo-a também nessa lide, abrindo a porta devagarinho sob vigilância atenta da superiora e do lenço que lhe tapa o rosto. Por vezes imagino, o gozo que lhe dará comer o pão.) 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pão de ló

O João faz anos hoje, quarenta e seis para ser mais precisa. Tem um atraso de desenvolvimento e acabou de sorrir muito ao apagar as velas de um pão de ló descongelado. 

(Isto é só para dizer que a felicidade tanto é ambiciosa como limitada, uma qualquer junção potencialmente perigosa para nós, que não sabemos muito bem lidar com ela.) 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

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O quadro estava pendurado na parede da sala que era branca e tinha uma mesa ao centro, rodeada de sofás floridos a verde e a bordeaux. O armário do fundo tinha uns sacos de dinheiro escondidos atrás num buraco escavado criteriosamente para não ser visto, nem que lhe arredassem a considerável carga, coisa difícil e pesada quer na prática quer na possibilidade, quase inexistente, de apanhar quem o velava longe da sua guarda. Um primo tinha um fato de marinheiro azul e um pífaro na mão e uma irmã tinha um vestido que não lembramos bem qual. Ela tinha um penteado seguro com uma bandelette feita com meias de mousse desusadas, colorida, que era como se queria. Eu tinha uma jaqueta de ganga rosa velho a cair em cima de umas calças brancas com bolas pretas. Os sapatos não estão na memória, mas está o cabelo, encaracolado e teimoso para todo o sempre. Vivemos essa altura no tempo em que a Kodak dizia que as fotografias deveriam ser tiradas em número doze, vinte e quatro ou trinta e seis, sem qualquer tipo de vislumbre, a não ser quando se regressava do fotógrafo com as preciosidades na mão. Não haviam grandes instantâneos, haviam poses estudas e arrumadas em escadas, ao lado dos vasos das flores e nos assentos dos sofás, construídas em cenários familiares completos para a posteridade que vivia nos álbuns verdes e vermelhos de lombada grossa, onde as películas autocolantes protegiam vidas perduráveis. Ficamos guardadas pelo tempo, ligeiramente envergonhadas por meias de renda até ao joelho, por saias de xadrez rodadas e por camisolas coloridas e tricotadas em tardes sem fim, à luz do sol do sótão. O sótão é talvez dos sítios do mundo com maior posse da minha memória. Não que não tenha outros, tenho imensos, mas aquele está arraigado em mim como se ainda vivesse, com cada recanto, com cada baú, com estendais de roupa e com a Bernina que costurava afincadamente pedacinhos de pele nas calças coçadas do meu tio. Lá também havia silêncio. Gosto do silêncio desde que me lembro de ser gente, muito embora o barulho melódico também me possa embalar. Nele, no silêncio, espreitava assustada a casa da velha viúva que vestia negro e que tinha um ar de personagem malevolente, dotada eventualmente de poderes de sortilégio, que a deixariam capaz de atravessar as janelas de vidro alto e de me roubar para todo o sempre, presa com as outras crianças que por certo encarcerava nas masmorras da casa. O xaile, sim, lembro-me muito bem do xaile dela, era enrolado ao corpo com um requinte exagerado para quem vivia entre quatro paredes, grossas e escondidas ao mundo, e parecia fundir-se com ela na perfeição, pela forma como a perseguia, dependurado, volúvel, completamente jungido aos seus arrebatados movimentos. Nunca a vi na rua. Às vezes ficava horas esquecidas sentada em cima de mantas a escutar este silêncio atormentado. As crianças têm destas coisas, um fascínio doentio por um desconhecido que as assusta, mas que querem ao mesmo tempo conhecer para além do limite imposto pelo medo. Dizem que isto passa com o tempo, dizem que a curiosidade da infância é qualquer coisa que os anos comem, com jeito e paciência, para que na adultez passemos a existir mais quietos e sossegados. Não sei se acredite ou se não. A poder regressava, voltaria a construir a vida que não era minha e a espreitar por entre as pequenas frestas a velha do xaile preto, no silêncio lá do sótão.

( É claro que não era a curiosidade a personagem envolvida. Nem o medo, nem o silêncio. Quiçá, a harmonia do conjunto, mas isto sem certezas absolutas.)  

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