terça-feira, 1 de janeiro de 2013

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O quadro estava pendurado na parede da sala que era branca e tinha uma mesa ao centro, rodeada de sofás floridos a verde e a bordeaux. O armário do fundo tinha uns sacos de dinheiro escondidos atrás num buraco escavado criteriosamente para não ser visto, nem que lhe arredassem a considerável carga, coisa difícil e pesada quer na prática quer na possibilidade, quase inexistente, de apanhar quem o velava longe da sua guarda. Um primo tinha um fato de marinheiro azul e um pífaro na mão e uma irmã tinha um vestido que não lembramos bem qual. Ela tinha um penteado seguro com uma bandelette feita com meias de mousse desusadas, colorida, que era como se queria. Eu tinha uma jaqueta de ganga rosa velho a cair em cima de umas calças brancas com bolas pretas. Os sapatos não estão na memória, mas está o cabelo, encaracolado e teimoso para todo o sempre. Vivemos essa altura no tempo em que a Kodak dizia que as fotografias deveriam ser tiradas em número doze, vinte e quatro ou trinta e seis, sem qualquer tipo de vislumbre, a não ser quando se regressava do fotógrafo com as preciosidades na mão. Não haviam grandes instantâneos, haviam poses estudas e arrumadas em escadas, ao lado dos vasos das flores e nos assentos dos sofás, construídas em cenários familiares completos para a posteridade que vivia nos álbuns verdes e vermelhos de lombada grossa, onde as películas autocolantes protegiam vidas perduráveis. Ficamos guardadas pelo tempo, ligeiramente envergonhadas por meias de renda até ao joelho, por saias de xadrez rodadas e por camisolas coloridas e tricotadas em tardes sem fim, à luz do sol do sótão. O sótão é talvez dos sítios do mundo com maior posse da minha memória. Não que não tenha outros, tenho imensos, mas aquele está arraigado em mim como se ainda vivesse, com cada recanto, com cada baú, com estendais de roupa e com a Bernina que costurava afincadamente pedacinhos de pele nas calças coçadas do meu tio. Lá também havia silêncio. Gosto do silêncio desde que me lembro de ser gente, muito embora o barulho melódico também me possa embalar. Nele, no silêncio, espreitava assustada a casa da velha viúva que vestia negro e que tinha um ar de personagem malevolente, dotada eventualmente de poderes de sortilégio, que a deixariam capaz de atravessar as janelas de vidro alto e de me roubar para todo o sempre, presa com as outras crianças que por certo encarcerava nas masmorras da casa. O xaile, sim, lembro-me muito bem do xaile dela, era enrolado ao corpo com um requinte exagerado para quem vivia entre quatro paredes, grossas e escondidas ao mundo, e parecia fundir-se com ela na perfeição, pela forma como a perseguia, dependurado, volúvel, completamente jungido aos seus arrebatados movimentos. Nunca a vi na rua. Às vezes ficava horas esquecidas sentada em cima de mantas a escutar este silêncio atormentado. As crianças têm destas coisas, um fascínio doentio por um desconhecido que as assusta, mas que querem ao mesmo tempo conhecer para além do limite imposto pelo medo. Dizem que isto passa com o tempo, dizem que a curiosidade da infância é qualquer coisa que os anos comem, com jeito e paciência, para que na adultez passemos a existir mais quietos e sossegados. Não sei se acredite ou se não. A poder regressava, voltaria a construir a vida que não era minha e a espreitar por entre as pequenas frestas a velha do xaile preto, no silêncio lá do sótão.

( É claro que não era a curiosidade a personagem envolvida. Nem o medo, nem o silêncio. Quiçá, a harmonia do conjunto, mas isto sem certezas absolutas.)  

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