segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

morte certa

A chuva da noite não me mazela o corpo, habituo-me a ela tal como se me tomasse ao de leve e me guardasse até no cimo do monte, de onde se alcança o rio com as luzes que cintilam na noite que não dorme, que por cá também as há. Falaste-me numa canja de mocho a dada altura e fiquei repugnada, não me interessa nada que cure os males respiratórios que sinto quando me dou às tuas mãos mais a sério, quando abandono a distância da vontade e a substituo pela existência do facto sentido, muito além do pensamento. As mezinhas caseiras nunca foram merecedoras da minha atenção, nunca fui dada a ditos milenares que banham peles em leite de cabra e que rodeiam olhos com pepinos, parece-me tudo uma versão arcaica do não menos arcaico calicida indiano, que come os pés das velhas e lhe conserva os calos. Deixa-te disso, apetece-me dizer-te, não me atafulhes o corpo de sabedorias que não interessam nem ao menino jesus, dota-me só das sapiências verdadeiramente importantes, aquelas que me balbucias normalmente baixo na redondeza dos meus ouvidos, como se o resto de mim não as pudesse ouvir. Murmura-me palavras que me façam sorrir, anda, num mundo pouco afável que conhecemos sem medos, o que potencia uma verdadeira assombração de ideias digeridas e consubstanciadas, ora por dentro, ora por fora, eventualmente a única forma possível de saber. A sério, desliza, vá. Resvala, escorrega que eu agarro-te, faz-me rir até perder o fôlego que controlo milimetricamente, assim possa, assim deixes. Ri comigo, claro, tens de rir comigo, enquanto me agarras nas mãos e me levas, que eu vou. Depois, depois ou antes, durante até, é tragar as malditas intemperanças e decapitá-las com uma lâmina cirúrgica que se arremessa em urgência no sítio exacto, sem hipótese de evasivas, sequer ensaios ou subterfúgios. Uma morte certa, remédio santo.       

4 comentários:

  1. As meninas pequeninas ficam repugnadas por tudo e por nada. Canja de mocho, pois claro! Nada como um bom ritual de iniciação para uma boa gargalhada. Depois, resvalo, escorrego e deslizo muito melhor.

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    1. Com tudo e com nada, não diria, mas com canja de mocho, ó pá, fiquei...
      Quanto ao resto, bom, quanto ao resto, parece-me muito bem. Começamos na gargalhada, depois resvalamos, escorregamos, deslizamos, matamos o que há a matar e rimos outra vez. Boa?

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  2. Não perder o sentido da certeza, é de primordial importância; a forma de reconhecer o valor da morte, e do sabor da vida.
    E... de Pessoa, dito por Bethânia:
    http://www.youtube.com/watch?v=sTwcoBvA3nU

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  3. O Bartolomeu gosta de música, estou a ver. Não perder o sentido de coisa nenhuma, é importante, sim.

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