quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

os mundos não são todos iguais

É por exemplo quando o meu filho me diz que eu sou a melhor do mundo que eu me assusto. Não está em questão o que eu sou, está em questão que eu sou para o mundo dele, e que é em mim que ele confia para além da razoabilidade, uma vez que ainda não sabe o suficiente para consciencializar que a finitude está de mão dada com a vida. Não perco tempo a explicar-lhe, claro, ele sabe exactamente o que precisa de saber nas circunstâncias que possui: eu estou sempre ali, enquanto o nosso mundo deixar. O nosso mundo, que os mundos não são todos iguais. E no seguimento acabo a perder tempo a pensar na maternidade do meu, não necessariamente nas questões práticas e físicas da questão, idênticas nos mundos de toda a gente. Não me assusta minimamente dar o meu ventre a um ser que cresce cá dentro durante nove meses certinhos, que me pontapeia, me deforma, me desconforta e me faz fome, enquanto o redor me abraça num cerco que eu nem me apetece, as hormonas são de facto qualquer coisa. Não me assusta deixá-lo sair-me do corpo sem qualquer tipo de auxilio químico, aguento perfeitamente umas horas de dores lancinastes, de mãos penetrantes, de carnes que rasgam em episiotomia ou em esticão, de agulhas que me colocam no lugar, um ponto de cada vez, é sempre preciso voltar à origem e nós estamos perfeitamente capacitadas para sobreviver ao processo. E no seguimento ao corpo arrumamos o resto, que também sabemos. Não me assustam as noites em claro desde o inicio até ao fim, o biberão de três em três horas, as fraldas, as chuchas, as cólicas e os dentes que rompem entre choros aflitos que aquieto no colo, enquanto segredo músicas de embalar no ouvido, pequeno mas curioso. Não me assusta sequer o crescimento, o desapego, a minha aflição na hora da cresce, muito maior ainda do que a dele, a qual eu arrumo no peito guardada em mim e só comigo, porque ele precisa de viver. Para além de mim, que também preciso. O que me assusta é por exemplo estes acordares ao meu mundo, nos quais fico trémula, insegura, irrequieta, ao mesmo tempo sem reacção. Não tenho futuros certos para lhe dar, mas flacidez de caminhos, angústias de vazios, incertezas como únicas certezas. Bem sei que a faculdade da resiliência é uma realidade humana enquanto a mesma respira, e que a dureza não mata per si. Mas cruzes, ser mãe também é medo, que começa com o clareio do dia e da concepção, mais cedo até. Vejo isso de manhã, por exemplo, antes de o acordar e de o ouvir a falar de amor, com palavras dele, comparando-me ao mundo. Enquanto dorme, quieto, com ar de anjo e cheiro de filho.

(Nunca conheci sentimentos maiores sem a brutalidade do oposto.)

6 comentários:

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    1. Manuel, a vida é assim mesmo, impressionante. Cumprimentos para si também.

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  2. «O que me assusta é por exemplo estes acordares ao meu mundo, nos quais fico trémula, insegura, irrequieta, ao mesmo tempo sem reacção. Não tenho futuros certos para lhe dar, mas flacidez de caminhos, angústias de vazios, incertezas como únicas certezas.»
    ;)
    Algum dia, desde o nascer dos tempos, a humanidade teve garantida a certeza dos caminhos?
    Nunca!
    Contudo, e talvez porque as mães-geradoras-de-amor, nos conferem a dose de confiança necessária, temos vindo caminhando ao longo dos milénios. Para onde vamos? Talvez nunca cheguemos a saber; sabemos somente que a caminhada é perpétua.
    ;)

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    1. Bartolomeu, nunca houve nada garantido. Talvez por isso a angústia das mães é transversal aos tempos, às eras e às espécies. Mas é bonita esta caminhada perpétua. Não é queixa, é só desabafo... :)

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  3. Medo é natural e esse mundo que somos para eles também. E é maravilhoso porque acreditam nisso. E é maravilhoso porque quase nos fazem acreditar também ::))

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    1. :))Fazem Fátima, fazem. E é exactamente aí que está tudo o que é bom, com as inerências opostas... Beijinho.

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