quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Carnaval

Sempre me vesti de nazarena, mas nunca tive sete saias. Faltou-me também o bigode e os pendentes nas orelhas feitos a oiro amarelo torrado, do mais legítimo que se conhece, vendidos à beira da praia em lojinhas de esquina guardadas a maresia fresca e a ondas revoltadas com o mundo, vá lá saber-se o porquê. Galgavam o areal rumo à estrada e lambiam a nossa alçada, as bestas, levavam tudo o que apanhassem à frente e deixavam em ânsia as mulheres aflitas, de homens no mar. Valha-nos Nossa Senhora da Nazaré, gritavam ao vento que engolia vozes mais ou menos com a mesma intensidade com que o mar engolia vidas, mas elas, pedintes e submissas, erguiam mãos em direcção à esperança dos céus e da Santa que ainda hoje mora numa igreja construída na  pontinha do Sítio, que tem um carreiro interno, encosta abaixo até ao mar. Em tempos salvou Dom Fuas Roupinho e o cavalo, dois de uma só vez, que ficaram erguidos in extremis nas duas patas traseiras do animal em vez de se despenharem nas pedras rochosas que lhe comeriam até a miragem do rasto. Porque não haveria então de lhes salvar os homens, os maridos, os filhos e os pais, que morriam de coragem em traineiras que mais pareciam cascas de nozes que dançavam na espuma branca, malfadada, sem pureza alguma? Não era disso que eu me vestia, queria lá eu saber era delas. Agoniava-me o corpo por dentro o alvoroço daquelas mulheres que gritavam alto e que se abanicavam na tragédia que ajunta gente, pareciam bichos ensandecidos estirados na areia. O que eu gostava mesmo era das meias de renda, dos aventais bordados e do chapéu redondo que me segurava o lenço que eu atava no pescoço, um encanto que só visto. Todos os anos era a mesma coisa. Na terça feira gorda bem cedo a minha mãe ornamentava-me o corpo com uma vestimenta que a cada vez tinha um pormenor de acrescento, coisa pouca mas suficiente para que eu ficasse muito feliz. Colocava-me os fios de conchas rosas e brancas ao pescoço e rumávamos à Nazaré, onde eu era confundida com as Nazarenas de verdade. No decorrer da tarde e enquanto marchava o cortejo, sentava-me na calçada e via tudo a passar enquanto comia tremoços e pevides salgadas, que eu descascava com a boca seca do frio e do mar.  
Ouvi dizer que este ano não há tolerâncias para ninguém. A pouco e pouco o povo perde o direito à festa, vamos ficando sérios, macambúzios, metidos dentro de uma realidade formatada a relatórios que nos dizem o que devemos fazer. Já não podemos deleitar o corpo nas vésperas da quaresma, deveremos habituar as carnes a viver no recato e no regrado da contenção, sem recursos a folias de libertação ou ensejos de irracionalidade. Guardemos tudo isto fechado e vamos mantendo a seriedade dentro dos nossos locais de trabalho, se os houver, que parece que é com ela que se refaz um País.

( Isto não trata uma critica à decisão do governo, é somente uma pequena nostalgia do tempo em que eu era criança, comia tremoços, me vestia de Nazarena e me estava a borrifar para as seriedades desta vida, mesmo que à minha volta o mundo se afundasse engolido por monstros medonhos que não me afligiam os pesadelos da noite.)

8 comentários:

  1. Adorei o texto. Mas nunca gostei do Carnaval.

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  2. Este ano andei à procura de um fato de Nazaré para a minha filha, nunca tive um que os meus pais não eram dados os tradições e mais depressa me vestiam de cosmonauta. Para o ano, procuro melhor.

    Concordo plenamente contigo, o direito à diversão é um direito essencial.

    (Porque é que fazes questão em referir que não criticas o governo ? Não é uma provocação, é uma pergunta genuina)

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    1. Carla, o meu foi feito, peça por peça, pela minha avó. :) Primeiro a saia, depois o avental, e por aí fora. Mas acho que existe à venda, é uma questão de procurares com tempo...

      Faço questão de manter o meu blog longe da politica, sabes? De vez em quando resvalo, acho que é inevitável, mas enfim, foi só por isso que fiz questão de referir... :) Um beijinho

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  3. CF, eu era vestida de lavadeira e detestava aquela trouxa na cabeça :)

    Agora visto-me de palhaço ,rir para não chorar...

    Sorrisos :)

    Ana

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    1. Palhaço nunca fui, mas lavadeira cheguei a ser. A última vez que me mascarei foi de Índia, com o meu filho, que achou um piadão ao assunto. :)

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  4. A par das da Ericeira, as praias da Nazaré fazem parte das memórias da minha extrema infância. Águas frias, ondas gigantes, névoas salgadas e muito iodo, diziam. Como nas da Ericeira, as vendedoras ambulantes ofereciam percebes, canilhas, pevides, cavalos marinhos e peixes fétidos secos. As minhas memórias das nazarenas assemelham-se a estes últimos. Com barbaças :)

    (Andas inspirada, com bons ares... a vida corre-te bem, calculo :P )

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    1. Paulo, Nazarena que se preze tem barbaças, claro. Mas eu não era dessas, conforme disse. :)
      Tudo isso que referes ainda há na Nazaré, incluindo os carapaus secos de cheiro horrível e com moscas de oferta... A queres, atesto contigo isso tudo. :)

      (Calculas bem sim. :) Vá, diz-me como descobriste...)

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