segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Suzette

A harmonia do padrão preto e branco geograficamente disposto no corpo de uma pessoa, fica sempre bem. Não importa sequer a ordem de distribuição do mesmo, poderemos considerar linhas, quadrados, assimetrias diversas, enfim, uma panóplia de motivos mais ou menos rectos ou lineares que nos arrumam a vista, por vezes cansada de cores. Não falo aqui da elegância que confere o detalhe branco a um corpo vestido de preto, uma realidade sabida e sentida por qualquer mulher que se preze, isso deixemos para outra discussão. Não secundária, atenção, mas sobejamente avassaladora para que nela me concentre neste último dia do ano. Não me apetece, vagueio por ora entre ligeirezas de espírito verdadeiramente açambarcadoras, passas, bolos reis, sonhos de abóbora e uma agenda novinha em folha onde está escrito que tenho 365 dias para dar uso como eu muito bem entender, uma riqueza que só visto. Falo mesmo só na harmonia, até porque hoje encontrei a cinquentona Suzette devidamente adornada de um modelo do género, enquanto bebia o seu café matutino. Desejou-me os votos da praxe, ficam sempre bem neste dia, e continuou a conversa com o proprietário do café que a questionava sobre o seu magnifico estado de conservação ao longo do tempo. Fiquei ciumenta, confesso. A dita, esquecida pelos anos, vendia cor e esplendor devidamente enquadrado no rigor da indumentária, e ofuscou-me num milésimo de segundo, coisas da vida, às quais já estou habituada. Concentrada justificava o facto com um primor de fazer inveja, é a lucidez característica de cabeças sossegadas, qualquer coisa que há muito me abandonou, um delito atestado em cada centímetro, interno e externo, do meu ser. Erro de percurso, devo dizê-lo. O excesso de pensamentos, diziam-me ontem, é motivo mais do que suficiente para que percamos a clareza e para que fiquemos fatigados. Olhamos o todo, captamos primeiramente o conjunto, o real terreno onde nos deveremos mover, mas na ânsia do pormenor avançamos e encaramos o detalhe que por si só nos prende, ainda que possa valer nenhures. Julgo que eventualmente seria prudente sujeitarmos o pensamento ao treino afincado de contrariar esta tendência, nos limites da razoabilidade, claro está. Olhar de longe mais vezes, ausentes do corpo, se possível for, elevando a ideia significativamente até um qualquer píncaro isento de possibilidade de minúcia. E conseguir assim alguma leveza, própria de muito poucos, eventualmente até maior funcionalidade.
Entrar em 2013, por exemplo, é por si só um mero detalhe. Deve haver fogo de artificio perto, mas eu prefiro a fraca fogueira lá de casa. As passas dizem que são doze, mas eu gosto delas e sou capaz de fazer isso por mais, outro pormenor, espero bem não deixar de ser feliz por causa disso. Se delicadamente levantar voo, lá mais para a meia noite e ofuscada no barulho da festa, encontro tudo o que preciso de ter, num raio abrangente mas alcançável.

(Caso não tenham percebido, caso me tenha perdido, isto foram apenas uns votos de bom ano novo. A Suzette é verdadeira, o resto são divagações excessivas de espíritos miudinhos. Mas a malvada espicaçou-me a vaidade, devo confessar, estou mortinha por me enfiar num vestido preto debruado a branco. Os sapatos, esses, ainda não decidi, mas quaisquer uns que me elevem com a elegância exigida me parecem bem. Gosto de alturas, é  isso. Vá lá saber-se porquê.)

10 comentários:

  1. Um bom ano novo!!!

    Beijos e sorrisos :)

    Ana

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    1. Ana, obrigada. Sorrisos para si, e tudo de bom :)

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  2. Tenha bom ano, Carla. Aliás, um vestido preto e uns sapatos bem altos são sempre meio caminho andado.

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    1. Igualmente, Ivone. Um vestido preto e saltos bem altos fazem caminhos imensos, é bem verdade. E que não venha quem desminta tal facto. Sorrisos para si :)

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  3. Bom ano. E, concordo com o vestido preto e os sapatos bem altos com um casaquinho branco quentinho a acompanhar.
    Bjs :-)
    Maria

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    1. Maria, tudo de bom para si também. O vestido preto, sim. Todas sabemos do que falamos. :)
      Beijinho...

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  4. Desconfio sempre de uma mulher que me aparece à frente de vestido preto. É verdade, não compromete, mas terá algo a esconder...?

    (Isto não é contigo, que a menina pode até vestir um amarelo-canário que fica sempre muito bem - com saltos muito altos, claro. Nem com as outras comentadoras, mormente com a Ivone que, pelo o que lhe leio, nasceu elegante todos os dias. É só uma constatação de homem que até já sabe umas coisas...:) )

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    1. A elegância do preto insurge-se, mas não faz milagres ou não é isso? Mas e de resto, a elegância não é isso mesmo? O viver com o que se tem, da melhor forma possível? Não é uma questão de esconder, mas sim de compor e enaltecer. Estou certa? :)

      ( Provavelmente, nunca me irás ver de amarelo canário. A não ser, eventualmente, em alguma relíquia ressuscitada do baú do post acima. E ainda assim, não sei... :)

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  5. Se estás certa ou errada não vem ao caso, mas gostei muito do teu vestido fúcsia do fim de ano, ó se gostei...

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    1. Eu sei que gostaste, mas já sabes que eu vou sempre vestindo vestidos pretos... Nada a esconder-te, como deves calcular, mas sou uma eterna apaixonada por eles...

      ( E tu também, que eu sei... :) )

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