terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Machadinha


Um dia tinha eu poucos anos e cantava qualquer coisa parecida com este título numa eira de pedra cercada a fenos, mesmo ao lado do sapateiro que vendia botas cinzentas que eu não podia ter. O sapateiro tinha duas filhas, uma alta e magra a outra baixa e gorda, que me olhavam sempre com desdém enquanto eu brincava com o primo Rodrigo, que era delas e não meu. Lá dentro da sapataria tinha nascido um mofo que tingia as caixas de um cinzento desmaiado e que subia pelas paredes mesmo até ao tecto. O tecto era baixo e tinha umas telhas de vidro fosco que deixavam entrar alguma luz do dia para dentro do barracão atulhado de botins de borracha, pantufas de xadrez, sapatos de senhora de biqueira redonda e as botas cinzentas, acolchoadas, que me faziam as delicias e que nunca me foram dadas. Mesmo ao lado morava a minha amiga Nádia que partiu há muito e que eu nunca mais vi. A casa dela tinha um alguidar onde se tomava banho, uns buracos no chão onde cabiam os meus pés, um colchão definhado onde dormia gente, um pai que gritava muito e uma avó que um dia morreu a beber vinho de uma taça de pé alto. Tinha ainda uma mãe com um nome doce e um gato amarelo que desapareceu atrás de uma gata e não mais regressou. No alpendre havia um baloiço preso numas vigas de madeira grossas que rangiam a cada puxo das minhas pernas, que saltavam sempre mais alto, e que me fazia imaginar que tocava nos céus. A machadinha era dançada por muitos meninos na eira ou na estrada de terra batida onde os carros caminhavam devagarinho, sem pressas ou impaciências. Não haviam luzes verdes ou vermelhas, haviam cabras a cortar caminhos, silvas que cresciam para fora do lugar, amoras que luziam na nossa boca. Não haviam urgências, não haviam medos, haviam noites e dias e um tempo sem fim. Hoje o que me veio à memória foi só a música. De rompante, senhora de si, despontada por coisa nenhuma que se visse. As restantes vieram atrás. De mansinho, a instalarem-se com zelo, não fosse eu estar esquecida de todo e puxá-las para fora com força, definitivamente, para morrerem logo ali. Parvas que são. Podiam entrar sem permissão, jeitos ou cuidados, tal e qual a machadinha, intrusa e repentina, sem licença que lhes fizesse falta. Não há tempo que as guarde, que vêm daquele que não existia.

( Um dia, muito tempo depois, encontrei numa feira umas botas cinzentas muito parecidas com as do sapateiro da aldeia. Agarrei nelas, revirei-as de um lado para o outro, atestei a qualidade do acolchoado e a biqueira redonda, calcei-as nos pés e mirei-me num espelho de barbear preso na porta da carrinha branca. Ficavam estranhas, demasiado largas nas minhas pernas magras que quase pareciam dançar no meio do enchimento, nada a ver com a acomodação que eu sentia haver com as pernas das senhoras que as calçavam, roliças e torneadas, debaixo das saias de lã.)  

4 comentários:

  1. Parece que está explicado o teu assombro por sapatos e botas....

    (gostei muito deste pedaço de texto, muito mesmo:)

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  2. Paulo, honestamente, não sei de onde vem... Naquela altura, bem precoce, já se sentia de facto. Lembro-me de que no lugar das botas cinzentas, a minha mãe me comprou umas galochas verdes com uns olhos de sapo :) Tudo a ver...

    (... :)...)

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  3. LOL Lembro-me tão bem dessas galochas com olhos de sapo. :):) (os sorrisos são par o texto)

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  4. Claro que lembras :) São um clássico :):)...
    ( Sorrisos para ti também...:):))

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