sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

nomes

Nunca pensou muito no assunto. Às vezes até se esquecia, rabiscava-o depressa nas folhas quando era preciso, sem que sentisse qualquer aprumo quando o escrevia ou quando o dizia. Mendes. Desde sempre que assinava Mendes no fim do seu nome, num acto desprovido de significado ou sentido, achava até que poderia assinar outro, se de repente algum sussurro lhe murmurasse ao ouvido um nome qualquer, sem que isso lhe acartasse qualquer tipo de remorso ou manifestação corpórea de incómodo. Depois houve um dia em que pensou muito no assunto. Foi numa tarde de Dezembro perto do Natal, quando se fechou dentro de uma sala de livros empoeirados marcados a fotografias sépia com poemas escritos à mão. Todos tinha o nome de António Mendes, o avô paterno que nunca conheceu. Não sabe porquê nem porque não, mas a partir daquele momento o nome fazia-lhe um quê de história. Passara a ter um sentido, um qualquer conteúdo que até então desconhecia, quando era apenas dele. Não sei se explico porquê, há coisas que até deveriam ser sempre nossas. Deveriam ganhar conteúdo e sustento quando presas à nossa existência, deveriam guardar dentro das letras fundo suficiente para que delas nos orgulhássemos, mas a verdade é que precisamos do passado que não conhecemos e ao qual gostamos de pertencer. Engraçado, porque eu há muito que sou Ferreira, mas Raposo é há pouco tempo. Nasceu-me algures a meio da minha vida, quando um velho que já não vejo há muito me guardava numa soleira da porta, bem perto de mim. Dei-lhe sopas à boca, escutei-lhe os medos e arrecadei-lhe algumas dores cheias de remorsos vividos para sempre. Era um Raposo estranho e, julgavam muitos, sem coração. Se calhar, admito, o coração nasceu-lhe tarde, precisou de germinar-lhe no peito lá mais para o final da vida. O coração pode nascer-nos com o tempo, é um facto mais do que comprovado por mim. Pode nascer-nos apenas quando resolvemos que deveremos dar corpo ao sentir que guardamos escondido num local inacessível, que se calhar nunca tínhamos visto. Ou que nunca nos tinham mostrado. Estas pessoas a quem nascem corações no fim da vida, vivem duas vezes, quem sabe até mais. Todos nós, de resto, vivemos várias vidas ao longo de uma só. O meu avô teve duas delas totalmente distintas. Numa, já tardia, o nome dele nasceu em mim. Não em soletração, há muito que o sabia dizer, mas em substância.

10 comentários:

  1. BAXTALE KReCHUNO
    thaj
    BAXTALO NEVO BERSH 2013
    Feliz Natal e Feliz Ano Novo de 2013
    COZINHA DOS VURDÓNS E HOMEOPATAS DOS PÉS DESCALÇOS
    PROJETOS AMSK/Brasil

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  2. Os nomes são espelhos nossos. Tive um tio chamado António Mendes, um tio de sobrancelhas grossas e voz dramática.
    Feliz Natal.
    beijinho

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    1. CNS, os nomes são parte de nós. Gostamos de saber de onde vêm, podem ser mais fortes ou nem tanto. Digo eu :) Feliz Natal para si também. E tudo de bom... :)

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  3. Também já fiz uma busca pelo meu nome... dizem os entendidos que tem origens na realeza espanhola :) Nome Mestre

    Sorrisos e Feliz Natal CF

    Ana

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    1. Não faço ideia das raízes longínquas. Só conheço mesmo as mais recentes, e gosto de ambas, é um facto :)

      Feliz natal para si também, Ana...

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  4. Acho que já encorpei e incorporei todos os meus nomes. São uma espécie de ascendentes de mim próprio e sinto-me muito confortável. Olá, doutora Raposo, tenho um cartão seu... :)

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    1. :) Eu trocava um deles, que não vem ao caso qual era. Raposo, sim, sou eu. Sempre às ordens... :):)

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  5. O que trocavas sei eu. Mas também não vem ao caso. (gosto dessa parte do "sempre às ordens", falta apenas "com gosto")

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    1. (Não seja por isso: Sempre às ordens e com MUITO gosto.)

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