segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Senhora

Vejo-a descer apressada na calçada escorregadia que a leva à estrada. Na mão tem uns sacos de crochet azul por onde escapam fios de lã colorida, linhas de bordar, revistas velhas e casaquinhos de malha grossa. Na outra transporta uma mala de pele castanha, o que juntamente com um vestido azul com borboletas bordadas a fazer sobressair todas as curvas e reentrâncias internas e externas, a transformam num cenário mirabolante, com demasiadas coisas para se olhar ao mesmo tempo. Ela porém parece não ligar. Concentra-se em transportar a sua carga em braços, reunindo as forças para se manter erguida por entre os buraquinhos da calçada branca que lhe prendem os pés elevados nuns peep toes encarnados, lindos de morrer. Vai proferindo umas palavras baixinho que eu mal consigo decifrar ao longe, que lhe saem dos lábios nacarados e grossos, desperdiçadamente entretidos a falarem sozinhos. De vez em quando gesticula em dificuldades por entre a sacaria diversa que lhe entorpece as mãos, na altura em que a sua voz se eleva ao limiar da polidez, o que quase a deixa inserida para lá da linha na qual escolheu mover-se nos dias que  hão-se vir. Nessa altura percebo-lhe as palavras, oiço-a num grito seco e estridente, muito embora da sua boca não lhe saia quase nada. Não falamos só com a boca, eu já sabia, falamos com os gestos descompassados, com os passos em desequilíbrio, com a pele pálida e entristecida que tapa migalhas de gente partida. Abeirei-me dela. Cheguei-me mesmo muito perto, ao ponto de conseguir escutar os rumorejos  que coloriam ligeiramente ao passar os lábios doces e desenhados a pincel macio, dos quais nasciam lágrimas pequeninas que se perdiam num instante, no espalhafato do ornamento. Pensei falar-lhe. Julguei por poucos momentos que as minhas palavras poderiam acolher-lhe a intempérie que lhe explodia do corpo, mas resolvi ficar calada. As palavras, as que deixamos escorrer da boca quando aflitos no desespero disfarçado, podem mais não ser do que meros desperdícios inglórios, pelo que lhe dei as mãos e caminhei ao seu lado. Sozinhas e num tempo sem fim. 

6 comentários:

  1. Mais uma mensagem...para refletir.

    Sorrisos :)

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  2. Sim Ana, eventualmente será essa a ideia :)...

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  3. As palavras julgam muito mais do que os gestos. Embora muitos ajuízem mais do que quaisquer palavras. Aí permanecemos num impasse: aparecer pela frente, ao lado ou nunca...?

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    1. Não sei Paulo, depende. Esse será, eventualmente, uma das minhas dúvidas eternas... A sensibilidade que tenho, pouca, ou muita, não importa, ainda não me permite descortinar com a exactidão que eu queria as palavras e o aparecimento. Normalmente apareço, mas ressalvo que me retiro, se for caso disso. Mas apareço... É o melhor que eu consigo fazer, pelo menos por enquanto. Esclareci? :)

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  4. Claro. Até porque a tua presença é essencial para que nada se perca e tudo se transforme... Certo? :)

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  5. :) Bom que assim seja... Muito bom...

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