sábado, 14 de maio de 2016

sujidade

Saí de manhã muito cedo. Sentei-me na pastelaria do costume e bebi um café forte que me queimou a língua com tanta força, que deixei cair a chávena no pires. Mena comia uma torrada ao longe e veio em meu auxílio, deu-me um copo com água, trouxe-me outro café, recomendou-me cuidado e poucas pressas dada a hora do dia, era Sábado, só eu é que parecia não estar a ver isso. Decidi ir à praça. A praça é um sítio onde me encontro com as minhas raízes, o cheiro do peixe lembra-me sempre a loja da peixeira onde eu ia em pequena, pelas mãos da minha avó. Recordo-me especialmente do processo de amanhar o carapau, abria-se ao meio, retiravam-se as tripas, deitavam-se para o chão, e logo depois chegava o gato que as comia cruas, rápida e bruscamente, ainda em sangue. Na praça de hoje em dia não há gatos. Há moscas, imensas moscas, que poisam no peixe com um sentimento de pertença que deve assustá-los, mesmo depois de mortos. Entram-lhe pelos olhos, dão a volta pelas guelras, saltam para as barbatanas, tudo debaixo dos olhos de quem os compra para o almoço, à dúzia, ao quilo, à posta, depende. Comprei uma raia para fazer uma caldeirada. Gosto de caldeirada de raia com sardinhas, forro o tacho com muito tomate, muitos pimentos, muita cebola, muitos alhos e muito azeite. Disponho as batatas por cima, coloco o peixe, e deixo cozer tudo no vapor do caldo guloso. Não me incomodam as moscas que me cheiraram o peixe que comprei. Não me incomodava o gato que comia as tripas do lixo. Não me incomodam as mãos de uma mulher que ensaca sem nove horas os queijos frescos para me vender, tal como não me incomodam os trocos que escapam da mão da outra, mesmo colados aos bolos secos. Não me incomoda nada na vida que cheire ao sujo da vida. Mas é capaz de me incomodar muito, a vida que finge cheirar a limpo. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

pentear

Ainda há quem julgue que é só nas telenovelas brasileiras que os homens saem para comprar cigarros sem nunca mais voltar. É mentira, completamente falso, isto passa-se na vida real. A bem da verdade não foi bem comprar cigarros, foi comprar outra coisa qualquer, mas o que interessa é que não voltou mais, não disse adeus, não deu justificação à mulher, nem aos filhos, nem às clientes de tantos anos. Confesso que me preocupo com a família. Admito que me custa horrores escutar as poucas palavras dela, imaginar a confusão da rapaziada adolescente, pressentir o desconforto nos olhos tremelicos e molhados dos três. Mas não consigo deixar de lado o meu egoísmo, e o que verdadeiramente me revolta é o desrespeito pela clientela, neste caso por mim. Há muito tempo que me penteava os cabelos com afinco. Há anos que escolhia comigo os cortes, as cores, os caracóis ou os lisos, os penteados e os tratamentos, as madeixas ou o tom sobre tom. Foi na loja dele que descobri o melhor produto para o volume, o creme de pentear mais perfeito, o secador mais indicado, o amaciador mais patenteado. Hoje, neste exacto momento, amaldiçoo a fidelidade com que há muito o presenteei. Hoje, neste exacto momento, sinto-me eternamente despenteada, descolorada, desarranjada e desolada. Digo-vos mais, não lhe perdoaria se voltasse, o universo dos cabelos femininos é um território mais do que digno de manifestações violentas, reflexos de sentires extremos. Nem mesmo se a sua pobre senhora o recebesse de braços abertos, de volta ao salão. O abraçasse com todo o amor do mundo, o voltasse a acolher na sua casa, na sua mesa, na sua cama. Isso seria com ele e com ela, e entre marido e mulher não se mete a colher. Este caso é meu e do meu cabeleireiro, e aí sim, o caso assume proporções sérias e verdadeiramente imperdoáveis. Um cabeleireiro pode até zangar-se com a sua mulher. Mas não pode, jamais, virar costas às mulheres que penteia. 

sábado, 7 de maio de 2016

perfecto

O mesmo assunto, um mesmo ramo, uma outra abordagem, duas visões totalmente distintas, e a verificação de que algumas palavras e posturas podem fazer toda a diferença. Enquanto um, e perante o meu problema, me diz com a boca cheia de nada " não percebo qual é o seu problema", a outra, com dois olhos, poucas palavras, muita sintonia e uns gestos cheios de tudo, desmonta-me a charada em menos de uma penada, ou seja, não só percebeu o meu problema, como o validou, o normalizou, o partilhou e melhor do que isso, conseguiu explicar-mo, tintim, por tintim, com as minhas próprias palavras. Cada vez mais me convenço de que a prática clínica não é uma ciência, é uma relação. Só alguém em perfeita conexão comigo conseguiria ir tão longe em tão pouco tempo, e sei que não há livro que lhe tenha ensinado isso. Os livros orientam o saber, mas só o corpo consegue ir onde nada mais pode chegar. E falou-se em espanhol, claro, na hora de la siesta, debaixo de uma trovoada interna e externa. Não se ouviu nadinha senão brandura, paz e sossego, e poucas vezes tinha estado tão acordada para mim mesma. Minha senhora, tiro-te o chapéu. Faço-te uma vénia, estendo-te um tapete, e só não me ofereço para te ouvir porque me sinto uma formiguinha na beira do tanto que tens para dar. Perfecto. Simplesmente  perfecto. 

( Tenho tanto para aprender que das duas uma, ou nunca mais paro, ou nunca mais me encontro.)

terça-feira, 3 de maio de 2016

vizinhança

O vizinho do segundo diz que gente como eu não faz falta. O povo precisa é de médicos e enfermeiros, para além de outros operacionais práticos que salvem pessoas, que ressuscitem gente, que curem doenças, que sarem feridas abertas, que se dediquem a limpar os despojos do corpo e a recolocar no lugar trapos limpos, lençóis enxutos, ligaduras sem sangue, pratos de comida. De que é que interessam os males da alma, pergunta-me, quando se está a sofrer com o corpo a doer, sujo, doente, fraco, moribundo? Pensei para mim mesma na razão daquelas palavras. Percorri em silêncio a brandura das minhas acções, a leveza do que digo, o desfalecimento do que faço perante a razão, a prática da vida, a solidez da existência, a magnitude do que se vê a olho nu. Está certo, totalmente certo, compreendo-o na perfeição. Para que a vida exista é preciso nascer, para que se possa existir, precisamos de um corpo, para que nos possamos mostrar é preciso que os nossos pensamentos se transformem numa coisa que se veja, e a verdade, a única verdade, é que me dedico ferozmente ao que não se pode encontrar. A vida já me deveria ter ensinado que só o que é palpável é verdadeiro, e que só o que é mensurável é real. O meu vizinho, carregado de dor até aos olhos, dispensa-me porque não sirvo para nada, mas ficou feliz, verdadeiramente sensibilizado, imensamente agradecido, quando no Natal lhe levei uma taça de arroz doce e um pote de mel. Para ele não importa que nada disso me tenha saído das mãos, que o arroz doce tenha sido feito pela minha mãe e que o mel tenha sido extraído pelo meu pai, estava ali, via-se claramente, tinha cheiro, cor, açúcar e canela. Ao contrário do tempo que lhe dedico, meu, arrancado das minhas horas, escutando-o todos os dias a falar da mulher que morreu. Somos tão iguais uns aos outros que a individualidade parece-me cada vez mais um constructo solitário, de algum ser morto há muito. Retiro o que interessa: há pessoas que pensam que sobrevivem a arroz doce, com muita canela, com virotes de enfeites retorcidos, e um paninho a cobrir. E são felizes, tão felizes assim, que chego a pensar que a felicidade é uma doce brandura, servida a quem aprecia retirar com um palito dos dentes os excessos, quando se comeu demasiada fartura. E retiro, claro, que gente como eu não faz falta nenhuma. Não interessa nem ao menino jesus. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

oi, moreninha

Foi num catorze de Fevereiro de um ano qualquer, teria eu uns doze anos. A escola criou uma caixa para escrever cartas de amor, e para a minha turma vieram umas sete, talvez umas oito, todas elas para raparigas: duas para a loira, as restantes para mim. Na hora não apreciei nada daquilo, senti tudo como uma estalada na cara, talvez do imprevisto, talvez dos sorrisos malandros da turma, talvez dos olhares de reprovação das outras, mas que diabo seria aquilo? A professora de português entregou-me o monte e ficou à espera, esquecendo-se apenas quando percebeu que eu não fazia ideia alguma de partilhar os versos apaixonados com tantos ouvidos, curiosos e indignados. A pouco e pouco, ao longo da aula, fui discretamente abrindo cada uma. Entre umas brincadeiras, umas seriedades, umas loucuras e outras tantas leviandades, debrucei-me sobre uma delas, que com alguma sabedoria se iniciava assim: "Oi, moreninha...". Ainda mal tinha sorvido estas palavras, e já a professora me espreitava por trás do ombro, enquanto me dizia: "descobre de quem é essa... começou tããão bem..." Não vem ao caso se descobri ou não, sequer as intenções de quem a escreveu. Vem ao caso que nesse dia, precocemente e sem querer, percebi algumas coisas de utilidade duvidosa: não há mulher nenhuma que não se encolha diante de determinadas palavras, nem mesmo as que fingem ser duras ou donas de si; os homens nem sempre preferem as loiras e as próprias sabem bem disso, muito embora tentem à exaustão do cansaço manterem-se iguais por toda uma vida, uma tremenda seca, julgo eu; todos eles sabem muito bem o que dizer quando querem ser bem recebidos, talvez porque nos conheçam muito melhor do que nós próprias, é um facto; oi, morenhinha, ficou-me como um bom começo de algo que nem chegou a começar. Mas que não deixou por isso, de ser um bom começo.   

Seguidores