domingo, 12 de junho de 2016

cheiro

São as raízes mortas que me seguram de pé quando estou quase a cair. São elas que me agarram com as mãos de ossos, e especialmente com o cheiro que nunca me esqueço. Lembro-me do cheiro dos meus mortos como se os tivesse acabado de cheirar agora. O do meu avô, sempre avinhado, constante e mais forte do que o vento da nortada. O da minha avó, uma mistura de laca, perfume francês e pele, e o da minha outra avó, a mais delicada de todos eles, que cheirava a creme Stendhal. Sempre fresca, sempre límpida, sempre clara e translúcida, mesmo quando minutos antes de morrer me pediu para que lhe colocasse o vestido de noiva por baixo do corpo, e um blush nas maçãs do rosto. E flores por cima, muitas flores. Nunca me esqueço destes cheiros que o meu corpo entranhou, e é sempre a eles que me socorro quando o o tempo abana, e no fundo não há chão. O abanão ganha um odor que acalma, num sítio onde só chego quando me consigo lembrar que na raiz do meu ser estão todos eles, a correr no meu sangue e em mim. O que consigo sentir em maior intensidade é o do meu avô materno, o espírito revoltado da família. Não que tivesse um lugar diferente dos outros, mas porque o cheiro do vinho é mais forte, guarda-se melhor. O da delicadeza fica mortiço com o tempo, tem tendência a perder a consistência e a desvanecer. É preciso mais força para conseguir cheirá-lo.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

(...)

Poucas são as vezes em que eu tenha perdido as palavras. Acontece-me quando a tristeza se desmancha à minha frente, se mostra e se assume, quando sei que nada poderá ser melhor do que o respeito do silêncio. Acontece-me ainda uma ou outra vez no espanto, quando o susto me engole todas as palavras que eu possa vir a dizer, fico completamente muda. Normalmente sobram-me na desgraça, na alegria e na zanga, no nascimento e na morte, nunca me faltaram na urgência da necessidade alheia, real ou simbólica, na dúvida ou na culpa de alguém que não eu. As vezes em que mais falho, concluo, é comigo própria, na concepção interna do meu ser. É lá, dentro de mim mesma, que por vezes não encontro palavras satisfatórias que me definam com um golpe de mestre o que me acontece. O que sentimos pode não caber nas palavras, digo tantas vezes a gente demais. Cabe no corpo, cabe nas mãos, cabe no sonho, cabe na esperança, mas não se define em caracteres que não dominam senão uma pequena parte do que existe realmente. Se eu pudesse inventava novas falas de expressão. Se eu tivesse o direito a isso, encaixaria no dicionário meia dúzia de palavras novas, que chegariam em meu socorro tal e qual hoje apareceram meia dúzia de transeuntes, num momento de aflição: estamos aqui, se precisar de ajuda, diriam. Essas palavras serviriam para que eu me aconchegasse nelas quando não sei o que sentir. Estamos aqui, se precisar de ajuda, repetiriam até à exaustão, até que eu olhasse para elas e as gritasse ao mundo, enorme, gigante. 

De nada nos vale o poder do grito. Não se não soubermos o que gritar.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

dia da criança

O dia era das crianças e resolvi por isso ir comer um gelado. Estavam dezenas de crianças no parque a andar de baloiço, a subir ao escorrega, a rodopiar na roda, a pedalar nos triciclos de dois ou de quatro lugares. Sentei-me numa sombra a saborear os escassos dez minutos de que dispunha para apreciar a vida ao entardecer, e fiquei estupefacta com o tempo que ainda me sobrou. Senti que dormi um sono, foi como se todo aquele tempo minúsculo, entre uma obrigação e a outra, me tivesse fornecido uma noite inteira de descanso. Atravessei a estrada e regressei muito depressa ao local de origem. Não me lembro do tempo que passei no caminho, sei só que cruzei uma criança com uma camisola alusiva ao dia, dizia: somos o melhor do mundo. Na salinha esperava-me uma outra realidade, triste, já coxa e entorpecida, que me confessou que desde o acidente não vê vida à frente, que está sem forças, acabado, envelhecido, uma tristeza que só visto. Perguntei para mim mesma o porquê de termos de ser velhos depois de podermos ter sido novos. Uma pergunta totalmente infortunada, sei disso, mas bem vistas as coisas gostaria muito de saber uma resposta que me levasse além do é a vida. E muito mais além do tudo tem um começo e um fim.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

norte

Ao fim da noite de ontem recebo uma notícia esperada, mas mortífera. Morreu o neto de uma amiga, com seis meses de vida, vitima de uma doença rara. Ligou-me em soluços, e eu, que julgo tratar estas questões por tu, pelo nome próprio dado por quem cá vive, fiquei no momento sem palavras para lhe dar. Estanquei ali estupefacta, a escutá-la, incapaz e impotente de a salvar ao sofrimento. Cada vez mais descubro que não sei nada desta vida. Nem da morte dos outros, nem da dor de quem cá fica. Houve alturas da minha existência em que não julgava nada disto, sentia-me capaz de aprender muito, enquanto a vida me deixasse. Hoje vejo tudo exactamente ao contrário, não aprendo coisa nenhuma em concreto, não há verdades puras, não há receitas infalíveis. Há pessoas, há mundo, há sorte e há azar, há bondade e há maldade, há vida e há morte. Concluo que tudo isto são grandezas que se podem explorar, tentar compreender, analisar e dissecar, mas nunca controlar. Concluo ainda, ferida, que os afectos nos turvam demais a intelectualidade. Permitem-nos o toque e a partilha, mas matam a competência real, quando quem nos é próximo perde o norte. Não há dúvida nenhuma, perdemos também. Não deve haver destino sem esta deriva.

domingo, 29 de maio de 2016

(...)

Percebo a loucura do mundo quando as mães me pedem para controlar em consultório a sintomatologia que incutem aos filhos, todos os dias. Presentemente tenho mães perdidas a quererem filhas perfeitas, outras ansiosas a desejarem meninos atentos e sossegados, pais violentos a queixarem-se da revolta do adolescente que mora lá em casa, e famílias sem tempo a estranhar o refúgio dos filhos, permanente e impossível de combater, nas redes sociais. O trabalho árduo foca as teorias sistémicas, mas na verdade recuperar questões de fundo é tremendo. A sociedade encontrou hoje em dia qualquer coisa semelhante aos dias do fim, e o que quero dizer é que poderemos piorar consideravelmente, claro, mas dificilmente conseguiremos manter a estrutura social à qual ainda estamos habituados. A vida é isto, nada é permanente, os hábitos reproduzem-se, por vezes alteram-se. Na morte dos ancestrais malignos, nascem os presentes, diferentes, eventualmente mais mortíferos. Já não há tanta negligência infantil. Temos mais cuidados de saúde, mais educação escolar, mais dinheiro e mais acesso à cultura geral. Temos na globalidade menos valores, menos tempo, mais doenças emergentes, mais solidão, menos educação de base. Ainda outro dia, num local público, um grupo de jovens competia pelo arroto mais alto. Também me lembro de na minha adolescência existir este tipo de competição. A diferença é que na época alguém ralhava, mal ouvisse o disparate. Hoje há uma indiferença misturada com uma descrença, polvilhada por muita resignação, servida com uma boa dose de desinvestimento. Ninguém cresce sem investimento real do próximo, ninguém aprende sem dedicação, ninguém ganha limites perante a isenção de quem, supostamente, deveria orientar. Qualquer dia arrotamos todos a este mundo farto de vazio, não há estômago que aguente, parece-me. É como mascar pastilha elástica permanentemente, sem engolir nada que nos sustente.

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