quinta-feira, 9 de junho de 2016

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Poucas são as vezes em que eu tenha perdido as palavras. Acontece-me quando a tristeza se desmancha à minha frente, se mostra e se assume, quando sei que nada poderá ser melhor do que o respeito do silêncio. Acontece-me ainda uma ou outra vez no espanto, quando o susto me engole todas as palavras que eu possa vir a dizer, fico completamente muda. Normalmente sobram-me na desgraça, na alegria e na zanga, no nascimento e na morte, nunca me faltaram na urgência da necessidade alheia, real ou simbólica, na dúvida ou na culpa de alguém que não eu. As vezes em que mais falho, concluo, é comigo própria, na concepção interna do meu ser. É lá, dentro de mim mesma, que por vezes não encontro palavras satisfatórias que me definam com um golpe de mestre o que me acontece. O que sentimos pode não caber nas palavras, digo tantas vezes a gente demais. Cabe no corpo, cabe nas mãos, cabe no sonho, cabe na esperança, mas não se define em caracteres que não dominam senão uma pequena parte do que existe realmente. Se eu pudesse inventava novas falas de expressão. Se eu tivesse o direito a isso, encaixaria no dicionário meia dúzia de palavras novas, que chegariam em meu socorro tal e qual hoje apareceram meia dúzia de transeuntes, num momento de aflição: estamos aqui, se precisar de ajuda, diriam. Essas palavras serviriam para que eu me aconchegasse nelas quando não sei o que sentir. Estamos aqui, se precisar de ajuda, repetiriam até à exaustão, até que eu olhasse para elas e as gritasse ao mundo, enorme, gigante. 

De nada nos vale o poder do grito. Não se não soubermos o que gritar.

3 comentários:

  1. Olá CF.
    Nenhuma palavra é capaz de nos confortar quando não sabemos o que sentimos. A presença, mesmo em silêncio, pode ser mais acolhedora.

    Um abraço e tenha um lindo dia! :)

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  2. Maravilhoso texto e sentir... palavras e sentimentos que poderia usar tambem como meus

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