sexta-feira, 24 de junho de 2016

salvamentos

Hoje escutei o relato de um bombeiro de profissão, que diz levar a vida numa boa. Já fez partos sem meios, já salvou gente da morte, já cortou cordas de enforcamento, de quase enforcamento, de enforcamento feito há dias sem fim, consumado, definitivo, escolhido ou enganado. Já retirou cadáveres de poços, de lagos, de rios, de tanques, já agarrou cabeças separadas do corpo, já levou membros para o hospital, devidamente acondicionados segundo o protocolo, já encontrou gente a morar em canis. Lá mais para o fim do discurso diz-me que não escolheu ser bombeiro, foi destacado de um concurso da autarquia, havia concorrido a motorista, mas foi desviado. A vida por vezes obriga-nos a escolhas diferentes do que tínhamos planeado. Querer conduzir um camião de mercadorias e ser colocado a livrar vidas da morte e mortes da vida, é com certeza uma inclinação atroz. Deve ser quase tão difícil quanto escolher uma profissão onde pensamos que poderemos salvar o mundo, mas afinal perceber que a única tarefa possível, é tentar salvar-nos a nós. 

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