domingo, 12 de junho de 2016

cheiro

São as raízes mortas que me seguram de pé quando estou quase a cair. São elas que me agarram com as mãos de ossos, e especialmente com o cheiro que nunca me esqueço. Lembro-me do cheiro dos meus mortos como se os tivesse acabado de cheirar agora. O do meu avô, sempre avinhado, constante e mais forte do que o vento da nortada. O da minha avó, uma mistura de laca, perfume francês e pele, e o da minha outra avó, a mais delicada de todos eles, que cheirava a creme Stendhal. Sempre fresca, sempre límpida, sempre clara e translúcida, mesmo quando minutos antes de morrer me pediu para que lhe colocasse o vestido de noiva por baixo do corpo, e um blush nas maçãs do rosto. E flores por cima, muitas flores. Nunca me esqueço destes cheiros que o meu corpo entranhou, e é sempre a eles que me socorro quando o o tempo abana, e no fundo não há chão. O abanão ganha um odor que acalma, num sítio onde só chego quando me consigo lembrar que na raiz do meu ser estão todos eles, a correr no meu sangue e em mim. O que consigo sentir em maior intensidade é o do meu avô materno, o espírito revoltado da família. Não que tivesse um lugar diferente dos outros, mas porque o cheiro do vinho é mais forte, guarda-se melhor. O da delicadeza fica mortiço com o tempo, tem tendência a perder a consistência e a desvanecer. É preciso mais força para conseguir cheirá-lo.

4 comentários:

  1. Mais do que as raízes, neste momento sinto que o que me segura são os frutos, que precisam de mim para amadurecer. Beijinhos

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    1. Também o meu fruto me segura muitas vezes... :) Beijinhos para si.

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  2. Prefiro arranjar forças no presente. Adoptei esta filosofia há pouco e resulta. Beijinhos

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