segunda-feira, 27 de junho de 2016

salvamentos II

Despi-me muito cedo e escutei a noite, mais nua do que o desejo. Cheirei-lhe todos os segundos, provei o sabor de todos os animais nocturnos, deitei-me à sombra de uma árvore morta e adormeci. Despertei muito cedo, antes do raiar da aurora, e fui-me embora. Fugi com medo da claridade, não fosse a maldita entrar-me pelos olhos adentro e alojar-se num sítio onde nunca mais a encontraria, seria o fim. Regressei a casa mais depressa do que a velocidade da luz, entrei de mansinho, não podia acordar ninguém, vesti-me a preceito e fui trabalhar. Não me lembro de todos os pormenores, mas sinto o peso de todos eles no meu corpo, em cada bocado de pele, que arde até ao infinito da dor. Tenho nos ombros o peso do cansaço, que me verga o nariz até ao chão, mesmo tendo fugido ao que a madrugada me ensinava, bem cedo. Largo a mala envernizada, linda de morrer, pode ser que o peso da maquilhagem e da agenda me alivie os anos, me solte o sorriso, me combata a desgraça. Tiro o casaco dos ombros, na vã esperança de que o fresco matutino me arrefeça o corpo. Descalço-me, ali que ninguém me vê, expectante de que as sandálias de salto me deixem tocar no chão que piso e me dêem sossego. Retiro os anéis dos dedos, os colares do pescoço, o relógio do pulso, e sinto-me cada vez mais pesada. Não sei o que dispa mais para aliviar o cansaço, e por isso fecho os olhos à espera que ninguém me descubra. Permaneci ali várias horas, no meio das pessoas e da correria, descalça, sozinha, sem nada que me assinalasse a vergonha. Precisava de não ser vista. Só a sensação de inexistência pode salvar uma alma aflita. Só o vazio nos pode dar sossego, na evidência da loucura. Só a solidão nos encontra, quando não sabemos de nós.

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