No desaire intensivo da passada semana, julguei ter conseguido alguém, que me sorria e me dizia, que trabalhar era com ela. Afinal, hoje deixou de ser. Necessitava de estar longas horas de pé, e as pernas doíam-lhe. Para além disso, fazer noites é uma coisa por demais chata.
E eis que recomeça tudo outra vez. É o chamado bis.
O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
domingo, 5 de setembro de 2010
Coxo de perna
Oiço-a com a calma possível, que sou boa nisso, de aparentar calmas inexistentes. Esforço-me a entender, mas aí já peco, que quando não entendo, não entendo e pronto. Ela esforçou-se na explicação. Nunca percebi muito bem a necessidade de se arranjar justificações para tudo, numa tentativa de aclarar com água benta negros pecados, que benzidos, soam melhor. Fez-lhe e aconteceu-lhe, mas coitado anda cansado. Dissecando a informação transmitida, que de resto se estende a mil e uma cabeças, acabo por considerar, salvando as devidas excepções, que a defesa do discurso, nem se destina muitas vezes à pessoa em questão, mas sim ao próprio. Mais facilmente se perdoa alguém cansado, do que alguém irado, só porque sim. De mansinho e com cuidado, aceita-se a raiva alheia com alguma rendição, e com o perdão bem implícito, do cansaço, nobre apaziguador de tudo e de nada. Se ao invés se chamar a coisa pelo nome, sem ludibrios e justificações, a carga linguística, e consequentemente a digestão do assunto, surge com dificuldade acrescida, e nem vale a pena atafulharmos-nos com mais chatices, que a nada nos levam, e que tanto nos pesam. Denominações mais precisas, serão por certo, uma eterna dificuldade da natureza humana, que prefere a serenidade de uma aquietadora justificação, a ter de arrumar actos crus e duros, de nomes crus e duros também.
Faz-me lembrar a Gaiata, a quem todos chamavam tia, nem sei bem porquê, hábito lá da aldeia. Vendia carapau miúdo na peixaria do lugar, desde que me lembro de ser gente. Os gatos rondavam o barracão velho de portões de ferro, que guardavam lá dentro as bancas de pedra onde o peixe repousava no meio do gelo desfeito e das moscas teimosas. A minha mãe, comprava-lhe um único, do qual eu comia o lombo, e ela rapava a espinha, tinha de lhe chegar, que os tempos eram de penúria. Gaiata lamuriava-se com frequência do marido, que se perdia na pinga até altas horas da noite, deixando-a a ela e aos filhos entregues a si próprios. Dinheiro para casa era ela que levava, vindo do magro peixe que ali lhe chegava, às portas da serra, por mão do peixeiro de Peniche. O homem, tanta pena lhe tinha, que o deixava fiado, uma e outra vez, grande bem que lhe valia, para ter pão para a boca das crianças, pois se do marido dependessem, nada comiam. Era um coitado, dizia. Tinha aquela deficiência de ser coxo, ouvia eu, enquanto deambulava no meio do peixe. Tinha-se entregado à bebida, que ser coxo impedia-o de trabalhar, mas não de beber e ou de passear, tinha de fazer alguma coisa, pobre alma de Cristo. Existem handicaps estranhos e selectivos, hoje sei disso.
Gaiata assim foi vivendo com o seu marido coxo, que se fosse um bêbado, tinha-lhe custado muito mais a aturar. Assim até nem custou tanto, porque ele era coxo de perna.
Faz-me lembrar a Gaiata, a quem todos chamavam tia, nem sei bem porquê, hábito lá da aldeia. Vendia carapau miúdo na peixaria do lugar, desde que me lembro de ser gente. Os gatos rondavam o barracão velho de portões de ferro, que guardavam lá dentro as bancas de pedra onde o peixe repousava no meio do gelo desfeito e das moscas teimosas. A minha mãe, comprava-lhe um único, do qual eu comia o lombo, e ela rapava a espinha, tinha de lhe chegar, que os tempos eram de penúria. Gaiata lamuriava-se com frequência do marido, que se perdia na pinga até altas horas da noite, deixando-a a ela e aos filhos entregues a si próprios. Dinheiro para casa era ela que levava, vindo do magro peixe que ali lhe chegava, às portas da serra, por mão do peixeiro de Peniche. O homem, tanta pena lhe tinha, que o deixava fiado, uma e outra vez, grande bem que lhe valia, para ter pão para a boca das crianças, pois se do marido dependessem, nada comiam. Era um coitado, dizia. Tinha aquela deficiência de ser coxo, ouvia eu, enquanto deambulava no meio do peixe. Tinha-se entregado à bebida, que ser coxo impedia-o de trabalhar, mas não de beber e ou de passear, tinha de fazer alguma coisa, pobre alma de Cristo. Existem handicaps estranhos e selectivos, hoje sei disso.
Gaiata assim foi vivendo com o seu marido coxo, que se fosse um bêbado, tinha-lhe custado muito mais a aturar. Assim até nem custou tanto, porque ele era coxo de perna.
Em cheio
Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Jorge Palma
Já a ouvi pela voz de Jorge Palma. Hoje, ouvi-a cantada por um David Antunes, carregado de mérito. Não obstante não ser a voz original, soube-me particularmente bem.
Encontro-me por ora em modo repeat. Há dias em que determinadas músicas nos atingem em cheio. Às vezes gosto disso, outras vezes não. Hoje gostei.
sábado, 4 de setembro de 2010
Feira

Resido em terras de feiras, feiras essas que se entranham nas gentes. A da cebola será já centenária, ou perto disso, por ora renovada pela vontade do povo, que se enfia em tendas onde se come e bebe vinho carrasco, como se o amanhã não existisse. Pelas ruas, o mesmo dá um ar de graça, ou de desgraça, nem sei bem o que diga. Já quase na aurora, num sono interrompido, logo hoje que estava profundo e de bons sonhos, oiço ameaças de morte. Eu mato-te, sua puta. Não te apanho hoje, é amanha. O posto da GNR, bem defronte à minha casa, nem deve ter percebido a algazarra, que se alastrou uma meia hora, com discussão acesa, entre os vários intervenientes. Levanto-me, bebo um copo com água, e vou fechar a janela, de onde já se sentia uma fresca brisa matinal, que desprezei em prol do silêncio. Um desperdício. Nesse exacto momento, o posto abriu-se e saem as autoridades. A Mulher e outros foram embora, ele pareceu-me ficar, nem sei se pouco, se muito tempo. Se a vontade em mata-la fosse real, teria sido consumada, que a lei, estava decerto adormecida. Ou distraída, ou um qualquer outro adjectivo, que nem importa qual, importa apenas e só, que tardou demais.
Somos um País de álcool, e eu, não simpatizo com ele, sem culpa alguma do próprio. A enologia até me seduz, que trata um assunto sério, de cultura, de ciência, que a ser respeitada, vale como qualquer outra. A incapacidade das gentes, de lidar com o prazer que lhe trás um bom vinho, de forma sensata e regrada, essa sim, intriga-me por demais. Esforço-me, mas nem assim compreendo, a necessidade constante de se intoxicar o corpo além limites, numa provocação a uma causa que demonstra bem a fraqueza do Homem, que ao invés de se proteger, entrega-se, ao ponto de se perder. Vai mais um copito?
Somos um País de álcool, e eu, não simpatizo com ele, sem culpa alguma do próprio. A enologia até me seduz, que trata um assunto sério, de cultura, de ciência, que a ser respeitada, vale como qualquer outra. A incapacidade das gentes, de lidar com o prazer que lhe trás um bom vinho, de forma sensata e regrada, essa sim, intriga-me por demais. Esforço-me, mas nem assim compreendo, a necessidade constante de se intoxicar o corpo além limites, numa provocação a uma causa que demonstra bem a fraqueza do Homem, que ao invés de se proteger, entrega-se, ao ponto de se perder. Vai mais um copito?
Não sei se ele a apanhou se não, e se o fez, provavelmente nem a matou. Por esta hora, após o sossego, o recato, ou sabe-se se lá mais o quê, até talvez as pazes tenham surgido. Provavelmente agora, ela até já nem é puta nem nada.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Da morte
Um Senhor que não importa o nome foi parar ao Hospital. Ontem, a meio da tarde, sacudia-se com uma força tremenda, estendido na sua cama de grades, sem ninguém o conseguir sossegar. Chamaram por mim, como se eu de algo lhe valesse. Olho para o Senhor a lutar pela vida com uma força tamanha, e para os filhos, que por um mero acaso se encontram no quarto, e que me dizem entredentes, que têm de ir regar o milho. Peço-lhes que aguardem um minuto, para que eu chame o 112, que demorou bem mais do que o minuto que lhes solicitei. Tive de soletrar o nome do Lar duas vezes, repetir a morada, e explicar o que se passava tudo ao mais ínfimo pormenor, a fim da situação chegar a quem de direito, algum tempo depois. Chego ao quarto, e os filhos saíram, não se fizesse tarde, e o milho se esvaísse ressequido. Ai que se calhar ele morre.
Não morreu, pelo menos ali. Se tivesse morrido, teria apenas e só, a minha mão a segura-lo. Mórbido? Não diria. Ciclo, vida, percurso, do qual todos parecem fugir como se as horas do fim, não fossem horas de vida.
Aos filhos, fiquei-lhes com um asco de morte. Espero bem que isto me passe.
Não morreu, pelo menos ali. Se tivesse morrido, teria apenas e só, a minha mão a segura-lo. Mórbido? Não diria. Ciclo, vida, percurso, do qual todos parecem fugir como se as horas do fim, não fossem horas de vida.
Aos filhos, fiquei-lhes com um asco de morte. Espero bem que isto me passe.
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