domingo, 5 de setembro de 2010

Coxo de perna

Oiço-a com a calma possível, que sou boa nisso, de aparentar calmas inexistentes. Esforço-me a entender, mas aí já peco, que quando não entendo, não entendo e pronto. Ela esforçou-se na explicação. Nunca percebi muito bem a necessidade de se arranjar justificações para tudo, numa tentativa de aclarar com água benta negros pecados, que benzidos, soam melhor. Fez-lhe e aconteceu-lhe, mas coitado anda cansado. Dissecando a informação transmitida, que de resto se estende a mil e uma cabeças, acabo por considerar, salvando as devidas excepções, que a defesa do discurso, nem se destina muitas vezes à pessoa em questão, mas sim ao próprio. Mais facilmente se perdoa alguém cansado, do que alguém irado, só porque sim. De mansinho e com cuidado, aceita-se a raiva alheia com alguma rendição, e com o perdão bem implícito, do cansaço, nobre apaziguador de tudo e de nada. Se ao invés se chamar a coisa pelo nome, sem ludibrios e justificações, a carga linguística, e consequentemente a digestão do assunto, surge com dificuldade acrescida, e nem vale a pena atafulharmos-nos com mais chatices, que a nada nos levam, e que tanto nos pesam. Denominações mais precisas, serão por certo, uma eterna dificuldade da natureza humana, que prefere a serenidade de uma aquietadora justificação, a ter de arrumar actos crus e duros, de nomes crus e duros também.
Faz-me lembrar a Gaiata, a quem todos chamavam tia, nem sei bem porquê, hábito lá da aldeia. Vendia carapau miúdo na peixaria do lugar, desde que me lembro de ser gente. Os gatos rondavam o barracão velho de portões de ferro, que guardavam lá dentro as bancas de pedra onde o peixe repousava no meio do gelo desfeito e das moscas teimosas. A minha mãe, comprava-lhe um único, do qual eu comia o lombo, e ela rapava a espinha, tinha de lhe chegar, que os tempos eram de penúria. Gaiata lamuriava-se com frequência do marido, que se perdia na pinga até altas horas da noite, deixando-a a ela e aos filhos entregues a si próprios. Dinheiro para casa era ela que levava, vindo do magro peixe que ali lhe chegava, às portas da serra, por mão do peixeiro de Peniche. O homem, tanta pena lhe tinha, que o deixava fiado, uma e outra vez, grande bem que lhe valia, para ter pão para a boca das crianças, pois se do marido dependessem, nada comiam. Era um coitado, dizia. Tinha aquela deficiência de ser coxo, ouvia eu, enquanto deambulava no meio do peixe. Tinha-se entregado à bebida, que ser coxo impedia-o de trabalhar, mas não de beber e ou de passear, tinha de fazer alguma coisa, pobre alma de Cristo. Existem handicaps estranhos e selectivos, hoje sei disso.
Gaiata assim foi vivendo com o seu marido coxo, que se fosse um bêbado, tinha-lhe custado muito mais a aturar. Assim até nem custou tanto, porque ele era coxo de perna.

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