quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Janelas


Nem por isso gosto de ver gente debruçada em janelas. Não tem propriamente a ver com o meu medo de alturas, bem aceso, por sinal, mas neste campo, totalmente incauto. O que me traz este sentimento, é o que reporta, que nem me refiro a uma paragem tranquila, de quem por vezes vê quem passa, ou apanha um ar matutino, mas a uma permanência exagerada, de quem se encosta a ela, por pouco mais ter que fazer. Lembro-me da minha querida Elisa, que sempre esteve à janela, desde que o seu marido foi morto a tiro, por se encontrar na cama errada, com a mulher errada, na hora errada. Tendo sido apanhado em pleno deleite pelo Homem traído, este, em nada o perdoou, livrando-se de uma vez do problema que lhe tinha entrado em casa, no quarto e na cama, fraca cautela de quem assim cometeu o pecado, que a descontracção nestas coisas, por vezes exagera.
Elisa ficou assim sozinha, que antes, o marido, embora passeasse por outras bandas, casas ou camas, nas horas da janta estava por casa, de noite, por tarde que fosse, também, e a ocupação do zelo que lhe devia, levavam-lhe o tempo, e nem ia à janela, que embora sem frequência usual, estava enfeitada como nenhuma outra, carregadinha de Sardinheiras em flor, de tons rosa e lilás, num bom gosto irrepreensível. Quem lhe conhece a história e acredita em sentidos, sextos ou assim, até pode julgar que o trato que lhe dava era já uma premonição, pela horas futuras que passariam juntas, mas eu, nem sou bem crente nessas coisas.
Logo após a perca, Elisa afogou as mágoas em comida, duplicou de tamanho e desinteressou-se da vida, que esta até a tinha traído, juntamente com quase tudo o que a circundava, porque haveria ela agora, de se esforçar por ela? Nem os seus dois filhos gémeos lhe animavam o espírito, e onde estava bem, ou menos mal, ou assim, fosse manhã, tarde ou noite, era na janela florida, companheira dos dias, de onde acenava a quem passasse, com um sorriso fraco e mortiço. As flores, numa contradição tamanha, ou ingratidão, julgo até poder dizer, por quem sempre as cuidou bem, em vez de ganharem vida na presença da dona, murcharam a pouco e pouco. Ou até talvez tenha sido, a tristeza entranhada nos dias envoltos, que se lhe tenha pegado e levado à moléstia, que as consumiu e levou, tornando-as assim inocentes. Elisa não teve mais alegrias, que justificassem de novo o sorriso, o regresso à figura maneirinha, e o retiro da moldura onde se enfiou para sempre.
Já partiu há uns anos, na sequência de uma paragem de coração, que o pobre coitado, deve ter cansado a janela, as flores murchas e os acenos ao longe. E também ele murchou, sem mais nada ter por que bater.

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