quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Revista Maria

Bem sei que me circundo em desgraça, faz parte de mim, que pode ainda vir longe, a minha mãe costuma dizer em Lisboa, mas eu até julgo que para mais, e já eu a cheiro e catrapisco, como se mais nada houvesse para me alimentar do que o mal alheio, que destilo com cuidado, amor e dedicação. Pois que se me abeira, de Maria na mão, que nem tenho nada contra, que se entenda, sendo uma revista popular, idêntica à antiga Crónica, nem sei se se lembram, e que serve de distracção, a tanta gente que dela necessita, só isso justifica, que há tanto se mantenha. Trabalha por turnos, intercalados com outra, sendo que pode ser das sete às duas, ou das duas às nove, ao fim de semana trabalha um dos dias das oito às oito, no outro folga. Ou melhor, folgar, é bem que se diga, nem folga nunca, sai de um local de trabalho e entra no outro, que pode ser a casa de alguma Senhora que a contrata à hora para lhe passar a ferro, arrumos de casa, e outros que tais, pode ser a cozinha, onde faz pastéis e rissóis para venda, ou pode ser o que surja, que trabalho, a ser sério, todo lhe serve. Os filhos estão em guarda conjunta, partilhada com o ex marido, um maneta enorme e desengonçado, que numa mão, reúne força de bisonte, palavras dela, por demais sabedora do peso, que tanto lhe caiu em cima, ao ponto de ter de fugir. O que lhe amarga a existência são os pequenos, que ora cá, orá lá, alternam os dias entre os carinhos da mãe, que por cansados que sejam, são doces demais, e a aspereza do pai, que por tempo que lhe sobre, nunca lhe soube dar o uso devido, por certo, também não saberá agora. Já pensou assumir a guarda por inteiro, coisa que em muito sossegava o seu coração de mãe, que logo desperta e sente, numa aflição iluminadora, que o pão para a boca de todos nem iria chegar, que já assim sabe Deus, quanto mais, que tudo se esvai em rendas, escolas, saúde e afins. Enquanto procuro o que lhe diga, que às vezes me faltam palavras, nem sei se já o tinha dito por cá, penso para mim que as Novas Oportunidades ou outros caminhos, deveriam chegar mais perto de gente assim, de percursos difíceis, histórias ofuscadas e encruzilhadas tamanhas, mas de espírito grande, que andam em frente, mesmo que a vida as empurre para trás. Assim evoluíam mais pessoas, assim se louvaria o projecto, assim se honraria o nome, oportunidade, se assim fosse, que depende de tanto. Acabo a dizê-lo e promete-me pensar, que poderia se bom para ela, como encaixar algo mais nas vinte e quatro horas dos dias, que lhes fogem a bom fugir a uma velocidade cruzeiro, que nem bem percebe como trava-las, quanto mais prolonga-las, e ali me deixa, com a amarga sensação de impotência, que às vezes me assola, e que tanto desdenho.
Vejo-a ir, ela e a Revista Maria, que a vai distraindo, no País de todos nós.

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