quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Minha Maria

Por muito que se negue, criamos ligações diferentes, já em tempos de escola assim era, que existiam professores capazes de melhor nos seduzir, e vice versa. Não que a empatia criada deva dar origem a diferentes tratos, isso sim, deplorável.
Maria é uma das que sempre me causou simpatia. Logo na sua vinda, sorria-me de sorriso rasgado, olhos pequenos mas vivaços, e tinha sempre algo de bom a dizer-me, que más palavras nem lhe saiam da boca, era pessoa por demais dócil para isso. O Alzheimer tomou-lhe conta da vida, que nestas andanças por vezes, doenças assaltam-nos o corpo, entranham-se fundo para não mais nos largarem, eu nem sequer gosto delas, e isto, quer sejam de carácter físico ou mental, que ambas nos atingem de tal maneira, que nos deixam muitas vezes prostrados, numa inércia sucumbida ao extremo de nada se poder fazer, uma loucura diria. Nestas de carácter mental, a loucura assume-se no seu esplendor logo à partida, que as nossas entranhas baralham-se, perdemos as cores, as alegrias e as tristezas, e até quem gosta de nós, que pode estar longe, perto, ou o que for, que a nossa mente em nada se importa. A não ser, isso sim, com o mundo interno que se construiu e pelo qual se rege, como se mais nada houvesse, que merecesse atenção.
E eis que a tal, do Alzheimer, me leva Maria, que nuns rasgos de lucidez ainda me sorri feliz, para no minuto seguinte me desdenhar a preceito, com palavras dignas de um qualquer cangalheiro, que pelo azedume da obra que pratica todos os dias, se perdoa que as diga. Também eu lhas perdoei, eu, que nem as merecia, mas Maria no seu juízo nem nunca as diria, malvada coisa que dela se apoderou. E ainda assim gosto-a para sempre, que Maria é Maria, embora nem seja isso que agora se me apresenta, no discurso frágil e falso, quase parecendo que algum demónio sem poiso se apoderou da sua alma, e se vai destilando aos poucochinhos, agora em mim, depois na filha, depois na neta. Nem lhe damos cabo, bem sei, que nestas coisas instala-se para sempre.
Maria vai embora hoje para outra casa que lhe zele os dias. Por motivos financeiros, que os tempos são de crise, e nem sequer condeno, que de resto, nem tenho por hábito condenar opções que não as minhas. Telinta-me porém o peito, porque ela vai. Não questiono competências, que as acredito, mas é que tenho-lhe amor. Daquele a sério, construído antes de algo medonho lhe ocupar a alma, e a deixar amarga e nada simpática.

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