quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Quadros de vida


Olho para os dois e vejo-os de mão dada, num jogo de amor e protecção, se é que se pode chamar de jogo ao cenário. Sinto a fragilidade do filho, entendível, e sinto ainda mais a do pai, que se insurge fora do tempo, como se nesta vida nos pudéssemos dar ao luxo de vivermos o que quisermos, como quisermos e onde quisermos, sem o mínimo atento à curva das horas, aos rasgos do tempo, coisa estranha esta que não nos conduz ao sossego. Nem sequer gosto de assim os mirar, porque de fora, por demais de fora, ou pelo menos de fora o suficiente para não me ser permitido intervir, mais por mim do que por qualquer outrem, apetece-me dar colo. Nem por protecção ao filho, que lhe dou toda a que tenho ou alcance, ou até ao pai, que isolado em si, em nada me toca. Julgo que para me proteger a mim mesma deste sentimento atroz que me deixa a mim perdida, como se o quadro que eu visse, fosse um Picasso indecifrável, que eu decifro assim, na luz dos meus olhos, coisas que os outros podem nem ver. Que ao menos eu decifrasse errado, seria o que eu mais queria, que muitas das vezes, aquilo que leio preferia nem ler, que a muito me poupava, e bem o mereço. Peco porém por esta destreza de ideias, que ainda que camufladas ao comum dos mortais, a mim me perseguem, como que se um dom detivesse, de sentir o que mais ninguém sente, de ver o que mais ninguém vê, e que afinal está lá. Não gosto.
Estão os dois de mão dada. O pai puxa o braço do filho, o filho segue-o com um sorriso. Não se consegue ver, mas a minha mão anda por lá, num afago imaginário não a um, não a outro, mas ao quadro, tal como disse. Nem por isso lhe pego, nem por isso o sustento, fica tudo na mesma. Ou pelo menos é o que se vê.

3 comentários:

  1. :):):)fizeste com que olhasse um quadro, de um estilo que nem gosto,com outros olhos :):)

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  2. A tua profissão está sempre presente em todos ou quase todos os momentos da tua vida não CF? Deve ser complicado separar. Não analisar. Não tentar saber porquê. Não ir mais fundo.
    Muitas vezes gratificante mas outras tantas cansativo, não?
    :)

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  3. Sorrisos para as duas :) E Sandra, é quase sempre cansativo, e quase sempre gratificante.

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