domingo, 19 de setembro de 2010

A enfermeira e os dias claros

Gostaria de ter sido médico, por gosto e vocação. Para além disso, sempre foi um Senhor enfermo, que enfermidades foi coisa que nunca lhe faltou, assim não lhe faltasse dinheiro e outros prazeres da vida, mas esses, esses sempre foram diminutos, que o que teve mais foi maçadas. A classe médica, sempre esteve portanto, presente em sua vida, que os cuidados que lhe prestava eram do mais rico valor, a não serem eles, nem sei que teria sido da sua existência, e há que louvá-los. Não lhe foi possível estudar, que Rosalina sua mãe, quase nem posses tinha para o sustento, quanto mais para lhe pagar estudos de medicina na capital do País, longe de casa, e sem família por perto, que lhe garantisse a dormida. Foi-lhe para lá um irmão, mas por essa época, já tinha desposado a mulher, e rumar aos estudos já nem fazia parte dos planos. Ainda assim rodeou-se de enciclopédias médicas, que o ajudavam a analisar a língua esbranquiçada, o branco do olho avermelhado, as pulsações aceleradas e a temperatura quente ou fria, que sempre poderia ser sinal importante do doença iminente. De tanto ler, foi escolhido pela aldeia para ministrar as injecções, que só ele e mais ninguém sabia dar. A seringa era de vidro, e fervia a bom ferver no fogão a gás, dentro de um recipiente próprio para o efeito, a fim de se fazer a devida desinfecção, método fraco, mas em uso na época. Fosse a que horas fosse, em caso de solicitação, lá ia, em socorro de quem uma dor tivesse, que necessitasse de intervenção imediata, das suas prendadas mãos.
Hoje está velho e cansado, e arranjou uma enfermeira para lhe cuidar as unhas dos pés, só podia, que sempre gostou de tratos. Tenho para mim que a querida Senhora, um amor, segundo o próprio, lhe trará anos de vida, lhe animará a negrura dos dias, e lhe amenizará as dores. Quem nos cuida, e já por cá o disse, deveria sempre ser doce, num contrabalanço feito à medida, onde os sorrisos se fundissem com a dor, dando aos dias um tom mais claro. A propósito, nem sei se já leram o Morrie, aquele que fala às terças, e fala muito bem. Ele explica isto melhor do que eu, e há sempre que dar o mérito, a quem o merece.

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