quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sonhos assim

Era noite. O que ela queria mesmo era sentir-lhe ódio, rancor, o que fosse, desde que se traduzisse naquela coisa que nos assanha por dentro, e que acende uma repulsa tamanha, que em certas alturas da vida, pode até ser um bem precioso. Não que o sentimento em si lhe traga algo de bom, que um sentimento negativo dentro do corpo, é sempre um sentimento negativo dentro do corpo, que mais não faz muitas vezes, do que sacudir-nos internamente, causar algum desconforto, e abandonar-nos à nossa sorte, como se merecêssemos, assim ser tratados por quem nos povoa. Mas há dias em que a sua falta se impõe, apenas e só porque na sua presença, o tal do amor que já nem encaixa, que lhe aperta o peito, o coração e o corpo todo, capaz até de a sufocar, talvez até se atenua-se um pouco, se possível isso for, e lhe trouxesse alguma calma, que poderia até ser fictícia, transitória, falsa, que nem importava, coisa estranha esta, dizer que o ódio, nos pode levar à calma. Se calhar, a calma a que se chega, nem será bem da verdadeira, mas será a possível de se sentir, quando os sentimentos nos atraiçoam assim. Nessa falta, mais não consegue que um doce suspiro, que se prolonga na noite, dentro e fora dos sonhos, que a abrangência é tal, que nem a esses perdoa, ainda Freud dizia, que o sonho nos guardava o sono. A guardar, guardaria bem guardado, e permitir-nos-ia uma escolha afincada do quero isto ou quero aquilo, e não uma entrega passiva a algo que nos transcende e nos leva, de vontade ou a contragosto, numa viagem programada pelo nosso inconsciente, que às vezes corre bem, outras nem por isso. E diz-me então que quase lhe sente medo, dos sonhos, diga-se, que aí então, o amor ainda parece maior, como se adormecesse a consciência, a censura se escondesse, e tudo pudesse fluir. Se não estou enganada, Freud, também dizia isto. De manhã, normalmente, tudo acalma. Ou quase tudo, que o malvado do ódio não chega, a história repete-se, e à noite surgem os sonhos outra vez.

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