sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Agostinho, e de como os Pais sempre deveriam ir primeiro...

Bem dizem por aí que quem nos guarda não dorme, eu quase que chego a duvidar, quando a dor que me ataca me parece tamanha. Eis que logo trata de me chamar à razão, de me fazer crer que o que sinto, por forte que seja, nem por isso é insuportável, como é insuportável, por exemplo, a dor do Senhor Agostinho. Hoje bem cedo encontro-o num choro desenfreado, que faz seis meses que perdeu a filha, de uma morte sofrida, não foi cá uma morte qualquer. De resto, e já por cá o disse, mortes de filhos assistidas por pais são sempre mortes assim, que nem deve existir dor maior do que essa, que nos possa atravessar o caminho. Entre soluços tamanhos transmite-me a sua dor, se é que ela é transmissível, julgo até que não, que existem coisas que sentimos, as grandes, as magnânimas, para o bom e para o mau, que não me parecem possíveis de trespassar. Sabe quem sente, quem por obra do acaso, da sorte, do azar ou do que for, é sujeito a esses profundos sentidos, que são nossos, muitos nossos e de mais ninguém. Agostinho diz-me ainda que a viu partir, num ultimo suspiro que ele próprio lhe teria arrancado se pudesse, não pode, que a vida, ou melhor, a morte, é mesmo assim, de uma perfeição de execução suprema, não há falhas, não há hesitações, leva quem tem de levar e pronto, só conheci uma doutras, descrita por Saramago, mas julgo que a tal nem exista, embora me tenha causado simpatia, confesso. Desde lá até hoje, seis meses, como já disse, volvidos, Agostinho consome-se aos poucos, esvaindo-se também ele, de forma muito mais lenta do que deseja, que a bem ser, já teria ido há muito, de preferência até, antes da vida lhe reservar tamanha provação, que de resto, nem superou, que a vontade foi-se, a alegria também, e o que por cá faz agora é mendigar, numa existência que acarta nos ombros como um fardo tremendo, qual carrapato, que não mais se descola. No final de tudo, largo-lhe a mão, fecho-lhe a janela, tento que descanse, e saio. Nem sei se sai cedo se tarde, que às vezes, a minha sensibilidade fica atordoada, mas nem sequer a condeno.

3 comentários:

  1. A descrição arrepia, só a descrição, porque o resto não sei o que possa ser...
    Bejico

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  2. Não há palavras...
    Um sorriso para ti :)

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  3. Se há coisa que me espanta sempre é a capacidade do meu avô para sobreviver à morte de um irmão, depois à da mulher, de seguida à de uma filha e à do outro irmão. A minha única explicação é ter ainda alguns vivos a quem se agarrar.

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