quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maria

Maria, uma das muitas que por ai há, é uma velha solteira. Um pouco impertinente, diria eu, embora com carinho. Diz-me o sobrinho que a acolheu, que a saber o que sabe hoje, nunca para cá a teria trazido, que lhe liga dia e noite, porque sempre de algo necessita. Vivia numa aldeia na Serra com um pobre irmão a quem comandava a vida. O mata bicho, o almoço, a janta e a ceia, saiam sempre na hora marcada, e ai dele se houvesse atraso, que logo levava com um ror de impropérios, dignos de ofender as pedras da calçada. Há tempos, rumou o sobrinho à Sobreira, a fim de desmantelar a casa e a loja, que por lá tinham ficado ao abandono, após a morte do tio, e a vinda da tia. O seu maior susto foi o armário medicinal da digna senhora, mais cheio, dizia-me ele, ainda que em exagero, do que a farmácia da aldeia. Sua tia padeceu de mil males ao longo da vida. O mal da ciática, desde muito nova. O mal da azia, que se calhar lhe atafulhou o espírito, pode bem ser, que nestas coisas do corpo, tudo se liga internamente. O mal do intestino preguiçoso, que só funcionava com ajuda, e de semana a semana. O mal da cabeça, que de quando em vez ficava tonta, e ainda fica, que é frequente ficar zonza e necessitar de permanecer o dia deitada, porque senão pode cair. Para tudo isto, detinha na sua posse, um considerável número de tratamentos, químicos ou naturais, que a iam ajudando a lidar com a má sorte que Deus lhe deu. Alia-lhe ainda as desgraças, de ser torta de nascença, e de não ter marido, coisa terrível esta última, que também a mim me assola, pelo que lhe causo um dó de morte.
Hoje, Maria aguçou as maleitas, e cerca quem pode com tudo o que a apoquenta. Da farmácia, vêm todos os dias, pomadas para isto e para aquilo, comprimidos que a adormeçam e que a acordem, pastilhas para a digestão, e laxantes vários, a fim de lhe lavar as entranhas entupidas. O Médico acede, que mais ele faça, perante a insistência acesa e implacável de que é dona desde sempre. A mim, como de resto, já é hábito, tocam-me os dentes, nem bem sei porquê. Que caem, porque a cola esgotou e ainda não chegou. Vai vir, digo-lhe na minha humilde paciência, vai ver que chega em breve.
- Ai menina, por favor ajude-me. Já sabe que lhe rezo todos os dias o terço, para seu bem, para o do seu menino, e a ver se arranja noivo.

Já lhe expliquei que nem era preciso tanto, que se ficasse por mim e pelo menino, mas ela insiste e reza para tudo. Acredito que me reza com alma, e não só para que eu lhe traga a cola para os dentes. No fundo é um amor a Dona Maria.

1 comentário:

  1. Deixa lá a Maria rezar por tudo que mal não faz!!
    Já estreei o nosso cantinho também!
    ;)

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores