quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Trio Odemira e afins


Passo na sala e oiço os Trio Odemira, já nem me lembrava de sua existência, e se a despropósito me lembrasse, por certo julgaria já nem existirem, tal é o tempo, a que já não os oiço cantar. Ouvia-os em pequena na Rádio Renascença, debaixo da mesa da cozinha da casa da minha avó, onde eu brincava horas a fio, com o gato, os carrinhos de linhas, e os jornais velhos do Ribatejo. Nunca tinha percebido muito bem a minha predilecção por estar debaixo de mesas, descobri há bem pouco tempo, quando encontro o meu filho enfiado debaixo da mesa da sala, onde tinha atado uma manta, com o propósito de fazer uma casa. Concluo que a ideia é essa mesmo, a de arranjar um porto seguro, um tecto à nossa medida, digamos assim, onde nos enfiamos, brincamos, e estamos ao mesmo tempo resguardados. Necessitamos disso, que se faça. Enquanto ouvia Trio Odemira e outros que tais, intercalados com António Sala e o jogo da mala, esse, julgo que extinto de vez, erguia castelos com os carros de linhas, barcos com as folhas dos jornais, e fazia o pobre do gato estar ali, de companhia, coisa que o pobre nem gostava muito, mas a isso se via obrigado, que eu na minha grandiosidade, a isso o forçava, atando-lhe a coleira do pescoço, à perna da mesa. O meu avô, nem muito tempo ali passava, saia cedo e voltava tarde, que a vida assim o exigia, mas quando estava, desligava o Rádio, os Trio Odemira e o António Sala, e punha as suas cassetes de Amália Rodrigues e de Rodrigo, o que muito me agradava, que desde cedo me rendi ao fado. A minha avó, que escrevia religiosamente as quantias do jogo da mala num papel pardo que trazia da padaria a embrulhar o pão, enfurecia-se, ainda para mais, porque eu, sua netinha querida, ao invés de a defender, unia-me ao meu avô e ao fado. Na altura, nem bem a percebia, a ela, esposa dedicada, costureira e bordadeira de primeira, cozinheira e cuidadora do meu avô, que via na Rádio Renascença, no António Sala, nos Trio Odemira e nos Parodiantes de Lisboa, a sua distracção, que lhe levava as ideias para longe do velho chato e vaidoso que tinha à perna e dos dias passados nos confins do nada. Fui uma ingrata eu, e hoje, se voltasse atrás, entenderia a minha avó, e ouviria com ela tudo o que ela quisesse ouvir. Ao fim e ao cabo, a pobre até nem pedia muito.

2 comentários:

  1. Para fazer a vontade aos meus pais fui, há pouco tempo, ouvi-los e vê-los numa pequena performance ao ar livre por conta dos 50 anos de carreira. Não são só eles que estão velhos, são as músicas também. Ao fim destes anos todos ainda cantam precisamente as mesmas coisas que cantavam quando tu os ouvias debaixo da mesa, só que com menos voz...:):)

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  2. falaste nos parodiantes de lisboa? Nem quero acreditar!!! Lembro-me tão bem, como se fosse hoje! Lembro-me também do último programa que foi ao vivo na Televisao...pena!!

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