O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Baús
Perco-me com baús de coisas. Úteis ou nem por isso, sendo o nem por isso a realidade que acompanha a maioria das vezes, porque a serem realmente precisas não estariam por certo tão arrumadas. Não obstante, e no meio das inutilidades, encontro sempre qualquer coisa que me fazia uma falta tremenda no exacto momento em que resolvo remexê-lo. Ainda me lembro de uma saia encarnada muito curta e rodada, descoberta no baú de solteira da minha mãe, que eu vesti vezes sem conta. Ou do colar de pérolas do baú da minha avó. O baú da minha mãe tinha ainda outras coisas encantadas, nomeadamente fotografias do meu pai nos tempos de ultramar, e cartas de amor trocadas por ambos. São uma preciosidade as cartas de amor escritas em caneta num papel que fica amarelado com o tempo. Hoje as cartas de amor são mais rápidas na chegada, mas são por isso muito mais friáveis. Um delete faz-se em modo rápido, sendo que pode nascer de um impulso repentino, sem noção real da consequência. Rasgar uma carta ou deitar-lhe um fósforo requer intento, pensamento, consciência do que se vai fazer. Ainda para mais porque as palavras escritas trazem impressa a caligrafia de quem as escreveu, qualquer coisa que parece reunir na folha o cheiro, as mãos, a vida de quem resolveu rabiscar o papel com paixões, acto que merece respeito. A última vez que bisbilhotei um baú encontrei roupas do meu filho. Foi há pouco, diria que quase agora. Meia dúzia de fatinhos minúsculos rapinados sabiamente pela minha mãe, deveriam ser guardados a preceito, poderiam vir a fazer falta a alguém. Encontrei ainda uma colecção fabulosa, muito embora já danificada, dos meus livros de Sigmund Freud. Foram suficientes para que me sentasse no chão empoeirado e perdesse uma boa meia hora a sorver-lhe as palavras. Reiterei, como se necessário isso fosse, que sou uma profissional poucochinha. Nunca uma verdadeira curiosa do inconsciente poderá conseguir trabalhar de forma eficaz sem aquela obra bem perto.
Manias
Assim de repente, e já me parece que a derrota de Telma Monteiro deixa o País a falar mal. Uma parte, pelo menos. Não devia. Enquanto nação temos todos o direito à alegria e à tristeza, mas não deveríamos ter a presunção do orgulho ou da crítica. Seja o que for será sempre mais dela do que nosso. Foi ela que lutou, foi ela que se empenhou, foi ela que ganhou o que havia a ganhar, e é consequentemente ela que amarga a verdadeira derrota. Mania, pá.
domingo, 29 de julho de 2012
Tantas Lisboas
No ouvido escuta um som muito seu. Estou em casa, pensa para dentro. No palco a guitarra portuguesa desfaz-se em notas sofridas enquanto da boca do fadista letras iguais juntam-se em diferentes palavras num mesmo sentimento. Na sala enquanto se comem chouriços assados em lume e se bebem vinhos de cor púrpura em copos de pé alto, as vozes que não sabem do que falam acompanham o fado. É a melodia triste que alegra as gentes, que as deixa imersas num saber imaginado que exala da pele dos músicos, eles próprios ignorantes. Prossegue a noite. Lá mais para o final, pessoas idas, músicas cantadas, amores jurados e corpos cheios de tudo, saem para a rua. A calçada de Lisboa sustenta-lhe uns pés que caminham sem andar, que voam sob uma cidade de luzes, de becos escondidos, de encantos e de amarguras. Sobem o terraço. Cadeiras distribuem-se no fresco da noite que ainda assim permite a cor do relento. Do alto avista-se um rio iluminado pela clareza da lua que redonda e gigante faz crer a quem a vê que a beleza é verdade. Encostam-se um ao outro enquanto o tempo escorre pelos dois exactamente no mesmo compasso. Saem de ambos poucas palavras, apenas e só as precisas, ainda que nem essas parcas o fossem realmente. Ele adormece. Acorda uns minutos depois enquanto ela o afaga nos cabelos e lhe conta um segredo que ambos sabiam. Ele sorri, junta meia dúzia de letras e solta da boca uma palavra infinita.
sábado, 28 de julho de 2012
Magias
É simples... Umas nádegas são somente a parte acima de umas pernas, que não são mais do que dois pedaços de carne que fazem com que nos seja possível andar. Umas mãos são uma ferramenta magnífica no ofício da vida, que permitem zelar por nós próprios e pelos outros. Uma boca é uma abertura no corpo pela qual colocamos alimentos que permitem que nos mantenhamos vivos. A língua serve para falar. As palavras não são mais do que um meio de comunicação e fonte de entendimento entre humanos. Os seios são um local de alimento para todos os animais mamíferos. Sem eles não havia vida. Um ombro trata um sítio no corpo de um outro alguém. Ou no nosso. Tal como dois braços, ou quaisquer outros membros. Uma árvore é um simples pedaço de mundo com folhas e frutos necessários à nossa subsistência, entre outras virtudes práticas, e o mar, por exemplo, permite com que possamos continuar a ser gente, bem como os animais, as flores e toda a diversidade da natureza. Um cozido à Portuguesa é um conjunto de géneros alimentícios que fazem com que a fome passe e depressa. Como uma açorda, como o feijão ou o grão. Uma almofada serve para descansarmos, bem como uma cama, um sofá, um chão, e todos os locais onde nos possamos deitar. Deitar, por exemplo, serve para dormir e repousar o corpo. A família serve para gerar, para criar e amparar. Uma igreja serve para rezar, bem como uma mesquita ou qualquer local onde o silêncio nos deixe à mercê da entrega. Uns sapatos são qualquer coisa simples que nos protegem os pés dos caminhos, e uma mala um mero utensílio onde guardamos coisas das quais precisamos todos os dias e por várias vezes. Um café acorda-nos, um chá sossega-nos. Uma varanda refresca, um lume aquece e alumia. Uma manta leva-nos o frio. O vento varre-nos as ruas. A chuva humedece os terrenos e os rios, rega os campos, dá-nos água. O cérebro raciocina, o sangue transporta, o coração manda. O estômago separa para a posterior limpeza do corpo, que deverá em coerência funcionar. Os homens e as mulheres servem para se complementarem, tais como todos os outros animais existentes na terra.
E depois somos o resto... Posso pegar por mil, pego meia dúzia, dos que falei ou quaisquer outros. Um cozido à Portuguesa não me mata só a fome, mata-me a gula. O mar serve-me muito além da manutenção do meu corpo, e uns sapatos não só me protegem como me envaidecem. Engrandecem-me, compõem-me. Um ombro pode ser só mesmo um ombro ou pode ser muito mais do que um ombro, e umas mãos podem ser tudo ou podem não ser nada. Um livro pode ensinar-me a ler e a escrever como forma de comunicação, ou pode ensinar-me a viver, a imaginar e a sonhar. Um sonho pode não ser só uma projecção e ser uma forma de vida. Uma vida pode ser só vivida, ou pode ser uma existência real. Um velho para além de um termo pode ser uma dádiva, e um amor interrompido pode não ser um fim, mas sim um caminho.
E depois somos o resto... Posso pegar por mil, pego meia dúzia, dos que falei ou quaisquer outros. Um cozido à Portuguesa não me mata só a fome, mata-me a gula. O mar serve-me muito além da manutenção do meu corpo, e uns sapatos não só me protegem como me envaidecem. Engrandecem-me, compõem-me. Um ombro pode ser só mesmo um ombro ou pode ser muito mais do que um ombro, e umas mãos podem ser tudo ou podem não ser nada. Um livro pode ensinar-me a ler e a escrever como forma de comunicação, ou pode ensinar-me a viver, a imaginar e a sonhar. Um sonho pode não ser só uma projecção e ser uma forma de vida. Uma vida pode ser só vivida, ou pode ser uma existência real. Um velho para além de um termo pode ser uma dádiva, e um amor interrompido pode não ser um fim, mas sim um caminho.
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