segunda-feira, 30 de julho de 2012

Baús

Perco-me com baús de coisas. Úteis ou nem por isso, sendo o nem por isso a realidade que acompanha a maioria das vezes, porque a serem realmente precisas não estariam por certo tão arrumadas. Não obstante, e no meio das inutilidades, encontro sempre qualquer coisa que me fazia uma falta tremenda no exacto momento em que resolvo remexê-lo. Ainda me lembro de uma saia encarnada muito curta e rodada, descoberta no baú de solteira da minha mãe, que eu vesti vezes sem conta. Ou do colar de pérolas do baú da minha avó. O baú da minha mãe tinha ainda outras coisas encantadas, nomeadamente fotografias do meu pai nos tempos de ultramar, e cartas de amor trocadas por ambos. São uma preciosidade as cartas de amor escritas em caneta num papel que fica amarelado com o tempo. Hoje as cartas de amor são mais rápidas na chegada, mas são por isso muito mais friáveis. Um delete faz-se em modo rápido, sendo que pode nascer de um impulso repentino, sem noção real da consequência. Rasgar uma carta ou deitar-lhe um fósforo requer intento, pensamento, consciência do que se vai fazer. Ainda para mais porque as palavras escritas trazem impressa a caligrafia de quem as escreveu, qualquer coisa que parece reunir na folha o cheiro, as mãos, a vida de quem resolveu rabiscar o papel com paixões, acto que merece respeito. A última vez que bisbilhotei um baú encontrei roupas do meu filho. Foi há pouco, diria que quase agora. Meia dúzia de fatinhos minúsculos rapinados sabiamente pela minha mãe, deveriam ser guardados a preceito, poderiam vir a fazer falta a alguém. Encontrei ainda uma colecção fabulosa, muito embora já danificada, dos meus livros de Sigmund Freud. Foram suficientes para que me sentasse no chão empoeirado e perdesse uma boa meia hora a sorver-lhe as palavras. Reiterei, como se necessário isso fosse, que sou uma profissional poucochinha. Nunca uma verdadeira curiosa do inconsciente poderá conseguir trabalhar de forma eficaz sem aquela obra bem perto.

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